quarta-feira, 5 de novembro de 2014

Profanar

Profanar significa literalmente desenvolver à esfera humana o que era ou tinha sido sacralizado, o que fora separado dos homens. É apocalipse, revelação. O termo passou a ter, ao longo do tempo e por influência do catolicismo, uma conotação negativa e até pejorativa, devido aos constantes saques dos tesouros desta igreja.
Mas, na verdade, profanação é a ação que evidencia, que revela, que desvenda o modo como a palavra representa mais do que o que reveste o conceito que ensina a pensar coerentemente e delineia o método filosófico ou não, com seus  procedimentos ou não, de descerramento do objeto e do seu nome próprio. A coisa só existe se possui um nome. Depois disso, seu uso se estende e se democratiza.
A profanação é, desta forma, a restituição do conhecimento, antes pertencente ao sagrado, ao uso e abuso do homem comum. É a democratização da palavra por meio de uma reordenação das coisas. Não, porém, num lugar comum, já que profanar é romper com o mero gosto em cuja vigência a sociedade impede a expressão. É a profanação da linguagem que cria a literatura, a transmutação da forma e da realidade que cria a arte, a inversão e/ou geração dos conceitos que cria a filosofia, a evidenciação do caos que cria a lógica.
A reciclagem e reutilização do lixo, do resto, a musicalidade da favela, a valorização e embelezamento das minorias, a banalização da violência e do que dá vergonha etc. são exemplos de profanação, desde que atendam a uma necessidade social de escancarar suas entranhas para melhor se conhecer.
O rompimento do conceito tradicional da poesia, com sua métrica e rimas, é evidência de profanação porque traz à tona outras realidades, superpostas e ocultas, de exclusivo conhecimento de Deus, até que uma criação passe a pairar na terra de ninguém: a internet. As religiões como o capitalismo, o espetáculo, a política, a democracia comum, o cotidiano, a corrupção dos valores e outras, porque todas são canônicas, se descortinam nas poesias da Gracita, da Carmen, da Dorli, da Chica e de tantas outras belas profanas. Qualquer tema está aberto e ao alcance de todos. A profanação é geral e que assim seja!





12 comentários:

  1. Olá meu querido amigo Augusto. Como vai você menino? Estou com saudades viu?
    Um texto soberbo desmistificando o conceito de profanar. E já que você desvirtualizou a profanação vamos continuar profanando a poesia criando versos e rimas sem métrica usando como regra os sentimentos que temos arraigados no coração.
    Um super abraço e muitos beijinhos nesse doce coração querido amigo

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  2. Oi Augusto,
    Que eu saiba eu profano a poesia, pois não gosto de rimas, sonetos decassílabos, ou seja, tudo quadradinho. Gosto de inventar sonhos para alegrar pessoas de todas as idades.
    Eu gosto de ler uma poesia que tenha lindas metáforas, fico deslumbrada e gostei tanto que a maioria das minhas poesias é metafórica:" As ondas do mar choram a sua ausência, num turbilhão de borbulhas agitadas."
    Mas como tudo na vida tem um fim, chegou a minha hora de conhecer outros lugares, quem sabe outros "planetas".kkk, para sair da rotina.
    Obrigada por me incluir
    Beijos
    Lua Singular

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  3. Que lindas e bem colocadas tuas palavras sobre a profanação.Ela existe mesmo e a vemos sempre mais! E isso é bom! As pessoas se arriscam mais, colocam suas ideias, independente de agradar ou não. Se expõe mais, colocam sentiomentos e tudo mais.

    Adorei me ver nessa lista tão carinhosamente trazida. Obrigadão e vamos continuando a profanar ,enquanto der,rs

    abração, ,tudo de bom,chica

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  4. Oi Augusto,obrigada por me incluir nesse texto,não sei se sou profana nas poesias ou, poemas,mas sei que adoro dizer que o sol sorri para nós em um lindo mnhecer,os rios choram e as flores nos cumprimentam quando passeamos pelos jardins,não há muita rima em meus versos.
    Eu adorei ser lembrada por você.
    bjs,obrigada pela visita e um ótimo dia
    Carmen Lúcia.

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  5. Olá Augusto,

    Um texto à altura do seu saber. Bem intelectual e com uma filosofia bem coerente.
    As 'belas profanas', citadas ao final, com certeza, abriram um sorriso ao vê-las aqui mencionadas.
    A profanação filosofada chega a conceitos interessantes e bem formulados. Um deles, que muito me agradou, foi a versatilidade poética hoje adotada, quando o poeta cria seus versos sem a preocupação com as rimas e métricas, mas em deixar fluir sentimentos que se comuniquem com a alma de seus leitores. Embora algumas construções poéticas encantem pela sua forma, há de se admitir que a profanação, 'in casu', acontece para enlevar.

    Excelente, prezado amigo.

    Abraço.

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  6. Olá Augusto:
    Muito bom ter recebido sua gentil visita.
    Interessante a conotação que você deu ao vocábulo profanar.
    Tirou o sentido "Ipsis litteris" da palavra e transformou a essência em algo com ares de beleza e criatividade.
    A poesia transmite sentimentos que ultrapassam as métricas e rimas.
    Bjs.:
    Sil

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  7. Não sabia o sentido original da palavra. Gostei muito como a usou no texto.
    E viva las profanas rs..bj
    Convido vc para participar da 3ª Edição Xícara de Ouro promovida pelo Café entre amigos, onde os leitores elegerão os melhores blogs de 2014.
    Confira todas as informações no link abaixo:
    http://www.cafeentreamigos.com/2014/11/3-edicao-xicara-de-ouro-eleicao-dos.html

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  8. Olá Augusto,

    "Profanou muito muito bem, um texto bem original.....

    Gostei muito!

    Bjos

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  9. Oi Augusto,
    Eu só conhecia o significa dessa palavra, dado pelos dicionários...
    A beleza da poesia não está somente em versos métricos e rimados,
    apreciemos pois a poesia profana, e suas 'outras realidades' !!
    Bjs :)

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  10. Olá Augusto!
    Toda a verdadeira criação pode surgir de uma certa profanação, no sentido de rompimento com o estabelecido.
    Um belo texto!
    xx

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  11. Amigo Augusto, como sempre, ler por aqui é sempre um prazer!
    Bem citadas as poetisas, só não conheço a Gracita, boa dica!
    Não acho nada sagrado, portanto profano sempre até na vida cotidiana, pois é tão natural tudo o que existe, seja aqui palpável ou de forma transcendental!
    Gostei de ler e obrigada pelo carinho lá no meu espaço, sempre tão amável, meu amigo!
    Abraços apertados!

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  12. Nunca tinha visto a palavra por esse ângulo.
    Ou seja, para mim, profanaste a palavra profanação. És um profanador...
    E vou daqui a saber mais alguma coisa. Obrigado.
    Bom resto de semana, caro amigo Augusto.
    Um abraço.

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