sexta-feira, 2 de maio de 2014

Tragédia

A palavra tragédia deriva dos termos gregos tragos (bode) e odé (canto), resultando em tragoidia, que significa literalmente “canção do bode”. A tradição dizia que ela foi criada pelos sátiros, seres metade humanos e metade bodes que cercavam Dionísio durante suas festividades. Dionísio é o deus das artes, da bebedeira divertida, do riso e da dança, o deus-espelho que reflete para as pessoas o que elas são. A partir da reflexão, elas passam a aceitar o que são e o que os outros são, podem perceber e respeitar o diferente, que canta e dança como qualquer um. É onde começa a surgir o conceito de humanidade, de que o ser humano pertence a um universo maior que o da região onde vive. Durante essas festas, as pessoas expurgavam seu lado sombrio e renasciam para a nova realidade mais condescendentes com seus iguais.
As festividades a Dionísio ocorriam na primavera, quando os tragediógrafos, como Sófocles, Aristófanes, Ésquilo e Eurípedes, concorriam a um prêmio, geralmente com três peças trágicas e uma peça satírica cada. Apesar de a produção ser abundante entre os séculos III e IV a.C., na Grécia Antiga, a maior parte das tragédias não sobreviveu.
Aristóteles foi o primeiro pensador a teorizar que a tragédia encenada resulta numa catarse daqueles que a assistem e isto explicaria o motivo de apreciarem ver o sofrimento dramatizado. Sua função é provocar por meio da compaixão e do temor a expurgação ou purificação dos sentimentos (catarse). Para ele, a tragédia deve cumprir três condições: possuir personagens fortes e de elevada condição, ser contada em linguagem elaborada, mas de fácil acesso, e ser digna e ter um final no mais das vezes catastrófico, com a destruição ou loucura de um ou vários personagens sacrificados por seu orgulho e prepotência ao tentar se rebelar contra as forças do destino (o sagrado).
Contudo, a encenação das tragédias causou o despertar de uma nova forma de pensar com Sócrates e Platão, mestre e aluno, cujos pensamentos engendraram o embrião da filosofia, baseada na razão e na busca da verdade, que nortearia as civilizações ocidentais desde então.
No século XIX, os escritores Nietzsche e Machado de Assis mergulharam fundo nas tragédias. O primeiro buscou inspiração nelas para demonstrar a realidade e, o segundo, buscou na realidade o fundamento de suas tragédias. O Antigo Testamento do livro mais marcante de todos os tempos, a Bíblia, está repleto de acontecimentos trágicos, como desfecho de uma vida iníqua ou resistente ao sagrado. Nele, também os evangelistas narram a tragédia de Ioshua ben Ioseph (Jesus), capaz de comover as pessoas pela sua dramaticidade.
Os filmes e novelas da atualidade estão fartos de cenas calamitosas, principalmente para os personagens maus. Os leitores e o público cinéfilo e televisivo se esbaldam com as tragédias esperadas em cada roteiro. Não é à toa que programas de TV e jornais sangrentos captam a atenção das pessoas de modo catártico e as comove à exaustão. As letras da maioria das canções, e não importam o estilo e o ritmo, descrevem as tragédias pessoais e garantem seu sucesso.
Restou para nós um sentido negativo da palavra tragédia, como grandes desgraças, mortes, doenças, acontecimentos que recusamos e queremos longe de nossas vidas cômodas. Só que não é possível viver sem esses acontecimentos, pois é como se tentássemos viver uma antinatureza humana e num paraíso utópico.
É por isso que desejamos que a justiça apareça em forma de desgraça ou doença para os desregrados, especialmente para aqueles que nos causam o mal. Como se a justiça fosse uma entidade separada da nossa moral, tivesse consciência e pudesse restabelecer as coisas justamente como as desejamos; quem pensa diferente é o contrário, representa o mal e deve ser exterminado. O hipócrita diria: não lhe quero bem, mas não lhe desejo o mal.
Trazemos enraizada a noção moral da recompensa e desde a infância somos treinados a pensar assim: aos bons, todas as coisas boas, dádivas e bênçãos; aos ruins, a vida lhe mostrará a paga algum dia e, de preferência que seja nesta vida, para que eles sofram o mesmo mal que causaram, que colham a semente do vento e da tempestade que plantaram. Desta forma, os conceitos de culpa e de merecimento se encaixam em silogismos morais. Quando não percebemos relações entre pessoas e destinos ruins, as creditamos à tragédia, ou seja, não entendemos por que uns sofrem tanto, enquanto outros perversos riem.
Mas, tragédia mesmo, é não entender que vivenciamos fatos bons e maus, que convivemos com pessoas que jamais saberemos de sua verdadeira identidade, assim como nós pouco nos conhecemos e também podemos surpreender negativamente aos outros. Mudar essa maneira de ver e viver as coisas exigiria uma completa guinada cultural, o que torna impossível essa empreitada. Reviver o culto a Dionísio para expurgar a humanidade tampouco seria viável. Então, só nos resta refletir sobre nossa postura ante as tragédias inevitáveis e até que ponto nos comprazemos  com elas.



16 comentários:

  1. Ameiiii! Nossa, que linda aula li por aqui, bem sabes o quanto gosto de ler e aprender, sempre, em cada lida percebo algo novo, sempre prestei muito atenção nas aulas e meus professores adoravam isso, portanto amigo Augusto, meu professor por aqui, percebi o carinho e a atenção para conosco, seus leitores, expôs muito bem os fatos sobre Mitologia, Dionísio(escrevi um poema sobre ele), qualquer dia reedito, me prendeu a atenção do começo ao fim, leria muito mais.
    Concordo contigo, as pessoas dão mais ibope para as tragédias e desgraças,(de preferencia alheia), jamais me comprazo com elas, já me conheces um pouquinho para saber disso, pelos meus escritos!
    Abraços apertados meu amigo sempre muito querido, tenhas um lindo fim de semana!

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  2. Augusto:
    Seu texto me remeteu a antiguidade, onde o sarcasmo se fazia presente durante as festas, regadas a sexo e bebida.
    Embora, hoje em dia, nem seja tão diferente assim...
    Debochar, tirar sarro e divertir-se com a desgraça alheia, faz parte da natureza humana.
    Evidente que é um comportamento desagradável e que constrange quem passa por essa situação.
    E o ideal seria, abolir essa postura, como você mesmo escreveu.
    Você podia continuar esse assunto, e abordar outros deuses, com viés sobre o sarcasmo.
    Bjs.:
    Sil

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    1. Oi Silvana!
      O sexo não era comum nestas festividades porque elas eram revestidas pelo sagrado, ou seja, em honra a um deus muito cultuado na Grécia antiga: Dionísio. Já, a bebedeira era comum e servia para igualar a todos, porque os bêbados se parecem e se igualam, mostrando que, em estado alterado pela embriaguez, o contato sensível com o sagrado se fazia em catarse. Depois das festas, todos se lembravam do estado em que estiveram e essa vergonha tinha como objetivo a expurgação e a reflexão sobre o fato de que nenhum era superior a outro.
      Interessante, não é?
      Vou pensar em sua proposta sobre o sarcasmo.
      Abraços!

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    2. Augusto:
      Voltei pra reler seu post e entender porque acrescentei o sexo as festividades.
      É que os "sátiros", que apreciavam a companhia de Dionísio, também eram amantes do vinho, da música e de orgias, ou seja, estes seres eram extremamente ligados ao sexo.
      Agora creio que justifiquei meu comentário, né.
      Bjs.:
      Sil

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    3. Oi Sil!
      Assim como o Carnaval, as Dionísias também tinham uma origem religiosa, portanto revestidas pelo sagrado. Contudo, você sabe que onde há bebedeira, as intimidades ficam mais relaxadas e tudo pode acontecer. Hoje, o Carnaval é completamente pagão e é onde os desiguais também se encontram. Os sátiros eram sim ligados ao sexo e os carnavalescos se comportam da mesma maneira.
      Um dos elementos que difere o Carnaval das Dionísias é o princípio artístico, enquanto o primeiro se pauta pelo luxo e suntuosidade das fantasias (personas), transformando a todos em reis e rainhas; aquelas transformavam a todos em bêbados molambentos, no sentido de humilhar o espírito e recompor o homem como filho, marido, pai e cidadão (o que não se vê em nossa festa). Por isso, encenavam as tragédias para deixarem claro que o destino final de cada um é a morte.
      Abraços!

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  3. Oi Augusto,
    Na minha primeira aula de filosofia cheguei em casa chorando, não entendi nada. Minha mãe nada podia fazer do que compartilhar com a minha dor. Mas devagarzinho fui gostando, haja vista, que tenho minha coleção dos grande filósofos, economistas e pensadores.
    Adorava teatro, falo adorava, pois quando morava em Santo André, não perdia uma peça e a que mais gostava era Tragédia.(Maldosa eu?). Hoje moro no interior só vem humoristas no nosso pequeno teatro.
    Adorei tudo que escreveu
    Augusto, só tenho uma coisa para lhe dizer:
    Você é o cara!
    Beijos
    Lua Singular

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    1. Oi Dorli!
      A filosofia não é um conjunto de textos ou de doutrina; ela é uma postura ante o não-saber. Alguns não querem saber e outros anseiam por isso. Os últimos são filosofos, pois desejam adquirir conhecimento. Abraços!

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  4. Augusto gosto muito de ler tudo que vc
    escreve, a gente vai aprendendo ,mas pelo
    que vi as tragédias e as maldades vem la do
    fundão mesmo e continua tudo isso, apesar da
    evolução humana nada melhorou, gostei muito dessa
    leitura elogios mais uma vez pelo belo escrito

    Tenha um final de semana
    cheio de paz
    Rita!!

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  5. Bom dia querido amigo.. muitas palavras tem origem do grego, latim.. é uma escola interminavel.. adoro tudo que diz respeito a récia.. tenho um livro muito bacana em pdf chamado mitologia grega.. abração caro amigo e até sempre

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  6. Bom dia Augusto \o/
    Gostei de saber a origem da palavra 'tragédia' , e achei interessante
    sua explanação sobre esse assunto em suas diversas faces ao longo do tempo.
    É impressionante como ganha-se audiência com a tragédia...
    parece que as pessoas tem uma atração mórbida por sangue e morte.
    Vc tem razão:
    'só nos resta refletir sobre nossa postura ante as tragédias inevitáveis e até que ponto nos comprazemos com elas.'
    Bjs e bom fim de semana :)

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    1. Oi Clau!
      Penso que as tragédias fazem parte do cotidiano e encará-las de frente e superá-las faz parte da vida. O que me surpreende é que muitas pessoas se comprazem com isso e vejo algo doentio nesta postura.

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  7. Olá Augusto,

    Todos nós vivemos nossas tragédias, mas tem aqueles que as transformam em destino...

    Um texto interessantíssimo...

    Bjos

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  8. Muito interessante não sabia a origem da palavra "Tragédia" e que seria para expurgar o lado sombrio e renascer.
    Este post foi uma aula sem duvida.
    Está certo qdo diz que nas novelas e programação em geral todo torcem para que as pessoas que praticam maldade sofram finais trágicos, seria uma forma de compensar a maldade praticada.
    Confesso que na vida real já pensei assim tbm não desejando que alguém sofra algo sinistro, mas que colham o que semearam.
    Afinal na própria bíblia está escrito , “Não se enganem; Deus não se deixa escarnecer. Aquilo que o homem plantar, isso também colherá. O que planta na sua carne, da carne colherá a corrupção; mas o que semeia no Espírito, do Espírito colherá a vida eterna”, (Gal. 6:7-8). O profeta Ezequiel declarou, “a alma que pecar essa morrerá” (Ez. 18:4), e o apóstolo Paulo ecoa, “O salário do pecado é a morte” (Rom. 6:23). Você colhe o que planta.
    Concordo com o final do post mudar a forma de pensar depois de anos e anos seria praticamente impossível, mas posso cuidar das milhas escolhas.
    Apesar de crer que muitas tragédias estão longe do controle humano.

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  9. Adorei o texto e conhecer um pouco mais sobre a palavra tragédia,e digo mais
    quando existem essas tragédias as pessoas parecem que adoram ver,ouvir e fazer parte das mesmas.
    Você nos deu uma grande aula amigo Augusto.
    bjs
    Carmen Lúcia..

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  10. Ola Augusto, boa noite!
    Amei estar aqui, ter essa aula, descobrir a origem da palavra Tragédia, e sair daqui com um pouco mais de aprendizado. Foge do meu entendimento como ser humano, entender como tudo que de ruim acontece dá ibope e chama a atenção de muitos.
    Beijos com carinho
    Marilene

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  11. Boa noite amigo Augusto
    Hoje é dia do abraço
    E abraçar é uma terapia
    um abraço traz a cura para as dores da alma
    e cicatriza as feridas de um coração machucado
    Um abraço traz sorriso para nossos lábios
    e aquece de maneira sublime e peculiar
    aquele que dá e também quem recebe
    Receba o meu abraço bem apertadinhoooooo

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