terça-feira, 25 de março de 2014

O mistério da casa da ponte

Com o sono interrompido e os sonhos inacabados, caminhávamos cerca de três quilômetros até chegar à escola. Eu, minhas duas irmãs e mais alguns garotos do lugar onde morávamos tínhamos de estudar em outra fazenda. O caminho margeava um rio e, como a escola ficava do outro lado, tínhamos de atravessar uma ponte de madeira, não muito confiável.
Após a ponte, seguíamos apressados para a escola, pois bem ao seu lado havia uma casa quase em ruínas, onde, diziam, morava uma velha bruxa. A cerca alta de bambu, encimada por uma trepadeira de bucha não deixava ver o que havia lá dentro e ninguém tinha coragem de espiar pelas frestas. O galho mais alto de uma figueira no quintal era o poleiro de uma arara azul, que sempre avisava a dona sobre a aproximação de alguém.
A chaminé sempre fumegando denunciava para nós, tão impregnados pelas lendas rurais, o cozimento de crianças que se aventuravam pelo quintal em busca de alguma fruta ou pela curiosidade em ver a bruxa de perto. Diziam que havia um enorme caldeirão para isso e a velha se fartava durante meses da carne macia daqueles pobres.
Apesar de nunca sabermos do sumiço de alguém, poderíamos jurar que aquilo era verdade, ainda mais que um dia mataram uma cobra imensa que saía de seu quintal. Entre os moleques que se acotovelavam para ver o réptil estirado e morto, fui me esgueirando para ver o impossível acontecer: uma cobra com pernas. Isso mesmo, eram uns arremedos de membros, parecidos com uns carrapichos. Afirmavam que era o animal de estimação da bruxa e que ela se vingaria de quem o havia matado e, sempre que atravessávamos a ponte, era uma corrida louca até a escola.
Alguém, nunca se soube quem, tinha visto enormes morcegos chupadores de sangue voejar à tardinha sobre a tapera. Outros ouviram urros estarrecedores, que pareciam os da caipora e ficávamos imaginando e discutindo o feitio deste ser fantástico, que pegava as crianças que se embrenhavam pela mata tentando um atalho. Ao sair da escola, não saíamos do caminho e corríamos até nos distanciarmos bem da casa da ponte, ainda mais se algum rodopio do vento pudesse trazer o saci, que era mancomunado com a velha.
Alguns anos depois, já morando em outro lugar, soubemos que D. Zaíra havia falecido. Uma pobre senhora que cuidava de um marido doente e uma filha especial e que vivia de parcos recursos: um roçado e umas galinhas. Comentavam que era uma senhora extremamente bondosa, que não tinha boca para nada. Cuidara do marido e da filha até a morte de ambos e depois vivera sozinha até seu triste fim.
Ninguém comentou qualquer coisa sobre a imaginação cruel daquelas crianças a respeito de uma senhora, que só queria sua tranqüilidade. Imaginação alimentada pelas crendices e ignorância, mas que eram eficazes para conter a sanha curiosa dos pequenos, que não se desviassem do caminho, que respeitassem o território alheio e voltassem ilesos para casa. Os adultos sempre se calaram ante nossa mista indignação e pavor e o mistério permaneceu insolúvel, mas a imagem pitoresca da casa da ponte povoará para sempre o meu imaginário.

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15 comentários:

  1. Acho que em todo lugar se criam essas "bruxas" rsrs, e no final olha quem era uma doce senhora cheia de problemas na vida.
    Adorei e claro nem precisa comentar escrita impecável...será que um dia chego???? rs bjusss

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  2. Tadinha da mulher né, aqui em Minas onde moro perto do morro tem uma casa mais ou menos assim. É bem simples e velha e dizem que a mulher é bruxa, coitada fui lá um dia encomendar umas pamonhas e não tem nada disso, mas já tomou conta do imaginários das crianças e até uns adultos kkk
    Parabéns um escrito perfeito e conto maravilhoso.

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  3. Oi Mano nem sei se deu saudade desse
    tempo, a gente ouvia tantas coisas das casas
    mal assombradas, acho que o imaginário das
    pessoas é que eram medonho ,eu gostei do seu conto
    e lembrei bem da nossa infância ....as vezes com medo
    outras não mas são histórias que o povo conta
    E a sua é bem legal gostei

    Abraços com carinho!

    └──●► *Rita!!

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  4. Oi Augusto,

    Adorei sua história, cheia de crendices e lendas, fez minha imaginaçao ir além...

    Bjos

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  5. Augusto, lindo conto, a imaginação é incrivelmente criativa, aqui também me senti em meus tempos de criança, e olha que faz tempo isso, mas é bom poder nos lembrar, sempre existe uma casa abandonada ou não, em meu bairro tinha era um castelo, nossa, quantas estórias se ouvia, era muito assustador!
    Amei ler, o final nada tenebroso, uma senhora bondosa morava sozinha, eis o que faz o medo né amigo?
    Abraços apertados!

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  6. Parabéns, seu conto me reportou ao sítio que morei até meus oito anos no Paraná, la tinha muitas destas lendas.
    Um ótimo conto e muito bem escrito parabéns novamente.

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  7. A imaginação das pessoas voa, né Augusto?
    Pensar que uma senhora, que só cuidava do marido e da filha, era tida como bruxa...
    Gostei imensamente da sua participação
    Parabéns!
    Obrigada pela gentil visita lá no blog
    Um forte abraço de
    Verena e Bichinhos

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  8. Do jeito que escreveu parecia que eu era um personagem do conto, via tudo com clareza.
    Coitada da mulher criança é dose mesmo.

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  9. Boa noite amigo Augusto
    Este conto nos reporta à infância, acho que todos nós vivemos fantasias assim. Belíssimo!
    A amizade verdadeira deixa marcas positivas que o tempo jamais poderá apagar. E você marcou meu coração pois és uma pessoa mega especial e eu te gosto muito. Hoje é o dia do “Amigo virtual”, o nosso dia! Vim te trazer o meu carinho e estreitar os laços de afetividade que se criou em nós desde o dia em que nos conhecemos. Um dia feliz e iluminado!
    Beijos desta amiga que te admira
    Gracita

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  10. Uma história envolvente, Augusto. Me lembrei das histórias que meu pai e meus avós me contavam, sobre buxos, cabalo-sem-cabeça, saci... e gente que sumia na sua frente por ser feiticeiro... me arrepiava. Adorei!

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  11. Adorei amigo, crianças são bem imaginativas mesmo, adoram fantasiar assombrações, eu mesma já fantasiei muito com algumas senhoras que moravam sozinhas proximo da minha casa quando criança srrsr tadinhas eram apenas velhinhas solitárias mas a gente imaginava de tudo rsrsr Abraçossss ótima participação!

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  12. Eu adoro ler contos que inspirem misterios. Sou mais chegada à ficção.

    Bjs

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  13. Oi Augusto,
    Até pensei que o conto fosse apenas subjetivo, mas pelo comentário da sua irmã,
    aconteceu mesmo!
    Essa época da sua infância, rendeu um belo e emocionante conto.
    Um abraço \o/

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  14. Boa noite, Augusto, nossa fiquei muito contente com tua presença lá na minha casinha, obrigada pelo carinho deixado, sabe este teu conto ficou ótimo, a imaginação faz tudo, ainda mais em mente de criança, pobre senhora que doou sua vida aos que tanto amava e depois a solidão, triste mas tão real nos dias de hoje, abraços Luconi

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  15. Augusto,uma história muito bem escrita e criativa! O imaginário infantil tem dessas coisas e só com a maturidade a verdade vem á tona! Adorei seu conto! Abraços,

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