terça-feira, 21 de janeiro de 2014

O amigo imaginário de Melissa Jones

   Viajar para a praia era um projeto antigo e, enquanto arrumava a mochila do filho, Melissa se policiava para não esquecer os detalhes. No vai e vem, entre a bagagem de um e de outro, ouvia o diálogo de Breno com seus bonecos e refletia se ele precisava de um companheiro real, um amigo ou um irmão talvez. Não queria ter mais filhos e, se fosse seguir o desejo de seu marido, a casa já estaria cheia agora. Tinha uma vida cômoda e estável, não sentia falta de nada, mas engravidar novamente não estava em seus planos.
   Enquanto Breno confabulava e até discutia com seus companheiros, relembrava de sua infância difícil e infeliz. Além de ser filha única, seu pai falecera quando tinha apenas dois anos. Sua mãe teve de trabalhar muito para criá-la e manter as condições de uma casa desprovida de quase tudo. Antes de ter idade para ir à escola, uma vizinha cuidava dela sem um mínimo de dedicação. Fazia tudo sem obrigação e deixava claro o favor, mesmo sendo paga, que prestava à sua mãe. Era velha e odiava aquele incômodo, então Melissa se refugiava no quintal da casa e ficava por lá até sua mãe chegar. Sentia uma falta imensa daquela mulher guerreira, que batalhou e se esgotou tão moça ainda. Falecera pouco depois de seu casamento, como se só esperasse que sua filha estivesse em boas mãos.
    A solidão que sentira seria a mesma que percebia em Breno? Ele freqüentava uma escolinha, onde tinha muitos amigos, pai e mãe dedicados e carinhosos, os irmãos de seu marido e primos sempre presentes. Será que lhe faltava algo ou alguém de sua idade para que ele crescesse com alguma referência? Sabia que a falta de companhias que tivera na infância a deixara ensimesmada, tímida, arisca, melancólica e de poucas palavras. Chegou a odiar a mãe na juventude e ela sempre ausente, trabalhando muito. Só depois de mocinha dera valor a tudo que ela fizera e, então, espelhou-se no filho, sentindo um arrepio pelo fato de poder ser incompreendida quando ele crescesse.
                Seu marido dizia que ela ainda falava consigo mesma e que aquele vício poderia ser tratado, que as pessoas sublimam uma situação e inventam coisas e pessoas para não se sentirem sós. Ela, muitas vezes, também discutia consigo mesma e sofria quando não dava atenção ao filho e ao marido. Acostumara a ser tão só que, mesmo tendo uma família, continuava sendo aquela menininha escondida no quintal. Lutava para não ser agressiva com as pessoas que amava e prometia a si que seria cuidadosa com elas. Outros diziam que o filho tinha o mesmo gênio que ela, mas bem sabia que aquilo era o resultado da solidão.
                Lembrou-se que até encontrar um namorado, aos dezoito anos, pouco tinha sido abraçada e beijada com carinho. Então, sentiu um forte desejo de abraçar seu filho e lhe dizer que estaria sempre ali com ele. Deixou as malas arrumadas em cima da cama e se dirigiu ao quarto de Breno. Parou e ficou observando os gestos e a conversa que ele travava com um ser imaginário. Também ela relutara em abandonar uma amiguinha que crescera juntamente até depois de sua adolescência. Eram coisas de fundo do quintal, mas as únicas reais e que faziam algum sentido. Frutos de uma mente doentia e infeliz. Sabia que era uma fase natural nas crianças, de treinar a comunicação para a vida adulta. Mas não era o seu caso.
             O filho percebeu sua presença, parou de brincar e lhe estendeu um sorriso tão cativante, tão confiante de que sua mãe o amava e veio em sua direção abrindo os braços. As lágrimas fluíram com força daqueles olhos que haviam secado ainda quando menina e, ante o espanto daquele ser tão pequeno e frágil, abraçou-o com a maior das ternuras e lhe confidenciou no ouvido que a mamãe e o papai desejavam lhe dar um irmãozinho.
                Enquanto viajavam para a praia, Melissa sorria um sorriso sincero. Não era para nada e para ninguém; era para si mesma. Sabia que sua companheira de toda uma vida a deixara livre para seguir seu próprio caminho, que a amiga imaginária tinha ficado naquele passado que agora via com outros olhos, sem peso e sem mágoa. Sentiu-se leve e amada e o dia estava claro e bonito. Olhou para os seus amores e eles a olharam e não viram a mesma pessoa, era uma mulher diferente, mas parecia muito melhor. Então ergueu o volume do rádio e começou a cantar junto com eles.




17 comentários:

  1. Estou adorando essas histórias imaginárias
    Cada uma melhor que a outra
    As vezes tenho vontade de falar sozinha ( falo né )

    Acho que saõ nossos melhores amigos esses escondidinhos rsrsr
    Adorei a sua é bem completa

    Bom dia de terça de sol

    _________________Rita!!!

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  2. Sem palavras Guto amei tudooooo....a Melissa que criou com todos esses detalhes ficou linda demais, me vi em alguns momentos desse conto.
    Fiquei muito feliz com sua participação acrescentou muito mesmo.

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  3. Uauuuuuu arrasou.
    Também quem sabe sabe né professor. Quem me derá ter essa imaginação e saber escrever assim isso ai da um filme.

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  4. Puxa, te saíste muito bem! Inspiração que nada deixa a desejar.Lindo final! abraços praianos,chica

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  5. Que história bonita... enquanto vamos lendo, entendemos o que se passa na mente de Melissa e torcemos mesmo para que algo bom aconteça, fazendo-a se libertar de mágoas passadas.

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  6. Oi Augusto, ficou muito bom seu texto.
    Será que todos nós temos um amigo imaginário? Rss

    Uma excelente semana para ti.

    Abraços

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  7. Oi Augusto,
    Gostei do conto. Achei emocionante e criativo.
    Amigos imaginários são bem vindos só na infância para suprir lacunas afetivas. Então tomara que Melissa Jones, deixe de ser a menininha escondida no quintal e viva o presente.
    Abraços \o/

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  8. Belo e criativo o seu conto, Augusto
    Gostei demais da sua participação
    Abraços de
    Verena e Bichinhos

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  9. Sensacional, Augusto.

    Toda forma de imaginação vale a pena, quando nos põe diante das verdades da vida.

    Meu abraço!

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  10. Augusto que belo texto. Realmente quantas Melissas da vida e seu amigos imaginários sofreram sendo cuidadas por pessoas desprovidas de afeto.

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  11. Que lindo... que delícia de ler... amei!
    A solidão muitas vezes nem é tão ruim assim qdo se tem um amigo imaginário, né?
    Lindo, lindo!

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  12. Oi Augusto,

    Incrível sua história, digna de um roteiro....

    Bjos

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  13. Oi Augusto, parabéns pela imaginação e criatividade, um texto que nos faz refletir muito sobre a solidão ou alienação.

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  14. Achei a foto do Renê e trouxe ela pra vc!!!!

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    Bjuss calorentos de boa noite!!!

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    1. Obrigado! É a carinha dele quando pede comida!

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  15. Olá Augusto:
    Já voltei, rsrsrsr.
    E cheguei em boa hora, pois seu texto está incrível.
    Sou a caçula de mais 3 irmãos, com diferença de 16 anos entre eu e meu irmão mais novo.
    Cresci rodeada de adultos, mas ao contrário da Melissa, sempre recebi muita atenção, afeto e carinho.
    Ainda bem que a sua Melissa, teve um final feliz.
    Bjs.:
    Sil
    http://meusdevaneiosescritos.blogspot.com.br/

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  16. Olá, Augusto! Gostei muito do texto e da personagem, cheia de sentimentos. Parabéns!

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