terça-feira, 9 de julho de 2013

Amor platônico

Quando se vê um gato, independente de sua raça, cor, tamanho, pêlos longos ou curtos, meigo ou arisco etc. sabe-se de que se trata de um gato e não outra coisa. Isto porque se tem a ideia do que seja um gato. Quando se vê uma cadeira, mesmo ela sendo de madeira, metal, plástico, de espaldar alto ou baixo, pintada ou não, de três ou quatro pernas etc. também se sabe que aquilo é uma cadeira porque estão implícitas naquele objeto tanto sua função como sua ideia. A ideia que se tem do gato ou da cadeira, assim, é anterior e, devido a isso, sempre são reconhecidos como sendo gato e cadeira.
Então, quando se adquire a ideia de algo, não importa como ele se apresenta, pois será sempre identificado como tal, independente das particularidades nele contidas. Isso remete à ideia de que haja um mundo separado e pré-existente, pleno de ideias perfeitas e que o real seja uma cópia deturpada daquele outro mundo. Mesmo tentando captar, por meio dos sentidos, a essência daquele algo, nunca será possível assimilá-la por completo, restando dessa forma apenas uma ideia dele.
Esse conceito foi exposto por Platão no diálogo “Fédon” e lá ele explica que há um mundo inteligível ou das ideias, uma realidade imutável, perfeita e igual a si mesma; e o mundo sensível, aquele que afeta os sentidos, composto por realidades dependentes, mutáveis e de imagens da realidade inteligível (Timeu). Seu objetivo era melhor entender o ser humano, o bem, a virtude, a justiça, a beleza, o amor e outras coisas.
Quanto ao amor, no ideal platônico, ele não se fundamenta num interesse, por exemplo, o sexual, mas na virtude. Um amor centrado na beleza do caráter e na inteligência de uma pessoa, independentemente de seus atributos físicos, algo essencialmente puro e desprovido de paixões. Ao se buscar uma relação apaixonada, cega, material, efêmera e falsa, tem-se como resultado o sofrimento e o distanciamento de tudo que é belo e virtuoso. Assim, o amor elevado determina felicidade a quem o busca, enquanto quem se fixa apenas no aspecto formal, ou seja, no corporal, tende a ser infeliz.
Na acepção vulgar, o amor platônico  é a ligação amorosa entre duas pessoas sem aproximação sexual, aquele amor impossível, inatingível, distante, que não se aproxima, não toca, não envolve. Revestido de fantasias e de idealização é aquele que faz sofrer.
Mas esta definição, contudo, difere da concepção mesma do amor ideal de Platão. Para ele, o verdadeiro amor é aquele desinteressado, referente ao laço especial de afeto entre duas pessoas, a raiz de todas as virtudes e da verdade. O objeto próprio desse amor é o ser perfeito, detentor de todas as boas qualidades e sem máculas. Dedicar esse amor a uma pessoa é ter afeto pleno de modo a atingir a perfeição.
Todavia, ele alerta para o fato de que quando se ama, tende-se a cultuar a pessoa amada com as virtudes do que é perfeito, porém, não raro aparecem os inatos defeitos de caráter da pessoa amada, assim como os próprios defeitos. Daí, que a concepção platônica do amor ideal implica uma justificativa para centralizar os valores da vida única e exclusivamente no amor humano, sem considerar todos os demais valores. Mas a natureza trágica do homem é a de combinar a matéria com o espírito, e a do corpo físico de impulsionar o rompimento do círculo cósmico do amor, quando apoiado num amor imperfeito, inferior.
Afora os defeitos, o afeto mútuo entre os amantes conduzirá a ambos à contemplação da beleza universal e, portanto, à contemplação do divino. Os encantos corporais não são belos em si mesmos, pois são imagens refletidas da beleza espiritual, e a alma humana deve aspirar a conhecer e amar essa beleza essencial. Por isso, o amor à beleza física é um passo até o objetivo final de união com a beleza última, e única real, do sagrado. Concluindo: quando se ama, não se deve ignorar os defeitos, mas privilegiar as qualidades do ser amado, para que ele se depure e atinja o mais alto grau, ou seja, quase a perfeição. Essa, para o filósofo, seria a mais sublime das virtudes.



26 comentários:

  1. Maravilhoso texto, agora a conclusão é que é difícil, pois geralmente as pessoas só v~em os defeitos dos outros. Um abraço Augusto e obg.

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  2. Boa noite Augusto :)
    É sempre bom ler um texto bem exposto,e refletir sobre o assunto.
    Muitas vezes exigimos do ser amado,qualidades que ainda nem possuímos.Mas é essencial privilegiar as qualidades.
    \o/ Um abraço!

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  3. Augusto:
    Viajei no seu texto, rsrsrsrs.
    Você me trouxe lembranças muito boas, da época em que estudei Husserl e sua Fenomenologia dos significados e significantes, na faculdade de Psicologia.
    A fenomenologia de Husserl parece ser uma tentativa de perscrutar o fenômeno em sua “pureza”, isto é, em sua “originalidade”.
    E isso vem de encontro ao proposto por Platão.
    Pois o que importa é a essência, e não a aparência.
    Bjs.:
    Sil


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  4. Oi Silvana!
    Para Platão, a aparência também importa, porque a beleza física pode ser um quesito para se atingir a beleza ideal ou espiritual. Ao se amar o belo, o homem tentará de tudo para contemplá-lo, valorizando as qualidades boas dos outros e as próprias, sendo bom, ético e virtuoso. Para que isso aconteça, basta querer e fazer acontecer. O problema está em se desvencilhar das aparências, ou seja, das coisas mundanas e do amor carnal.
    Um abraço!

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  5. OI AUGUSTO!
    SABE-SE QUE A BELEZA FÍSICA É O PRIMEIRO PASSO PARA O ENCONTRO DE DOIS SERES, MAS, PARA SER REALMENTE AMOR,EXISTE
    UMA TRANSFORMAÇÃO DESTE SENTIMENTO, QUANDO ELE ATINGE UM GRAU ELEVADO DE AFETO ENTRE OS DOIS,SURGINDO ENTÃO UM SENTIMENTO MAIOR.
    ABRÇS
    http://zilanicelia.blogspot.com.br/

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  6. Oi Augusto. O amor é sempre arriscado, mas quando é iluminado sempre nos eleva. Abraço!

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  7. Somente hoje compreendi o significado do amor platônico, adoro seus textos e mais ainda como os elabora....filosofar aqui é bom demais.

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  8. Olá!Boa tarde
    Amigo Augusto
    ...de acordo com seu belo texto, penso que na teoria de Platão o mundo sensível é apenas um reflexo do que há de bom no mundo inteligível, ou seja , o amor perfeito só existiria na mente das pessoas... que o amor deve ser a afeição elevada a um plano ideal que transcende o contato físico, mas não o exclui, ficaria só na imaginação, que seria amar uma pessoa por seu caráter, inteligência, beleza etc...e com o tempo tal expressão ,o conceito original , foi sendo distorcida como se o amor platônico fosse um amor à distância, que não se aproxima, não toca-se, é apenas feito de idealizações, pois , a idéia que temos hoje de amor platônico é a da afeição sem contato físico.O medo de não atender aos anseios do amado, o sentimento de desvalorização podem contribuir para a não aproximação, para o amor à distância, impedindo que o indivíduo vivencie não só a experiência de amar, mas sentir-se amado. Costuma-se dizer, também, que às vezes confundimos amor ideal com amor platônico.
    E por fim, quando se ama, não se deve ignorar os defeitos, mas privilegiar as qualidades do ser amado, tornando-nos "buscadores de amor" em vez de "buscadores de defeitos...
    "Relacionamentos são uma oportunidades de saber quem somos e de evoluir cada vez mais”.
    Obrigado pelo carinho da visita
    Belo final de semana
    Abração

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  9. Olá Augusto,

    Uma delícia de texto...elaborou muito bem...

    Bjos

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  10. Oi Augusto!
    passei por aqui li e reli,o assunto é muito interessante e mexe com o pensamento da gente. Obrigada pela visitinha ao meu blog. ABRAÇO...

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  11. Olá Augusto,

    Um texto bem interessante e muito bem colocado.
    Creio que o parágrafo final esclareceu o ponto fundamental da filosofia de Platão. Um amor calcado na virtude e beleza de alma do parceiro(a) é um amor divino, que valoriza qualidades e aceita defeitos, levando ao progresso de cada um.
    Esta frase me pareceu perfeita: "Por isso, o amor à beleza física é um passo até o objetivo final de união com a beleza última, e única real, do sagrado".

    Abraço e ótimo final de semana.
    (Estou de volta).

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  12. "(...)por Platão no diálogo “Fédon” e lá ele explica que há um mundo inteligível ou das ideias, uma realidade imutável, perfeita e igual a si mesma; e o mundo sensível, aquele que afeta os sentidos, composto por realidades dependentes, mutáveis e de imagens da realidade inteligível (Timeu).(...)"

    Uma análise do comportamento humano extraordinária!
    Umas das raras confesso-te a qual tive eu o privilégio de ler, meditar e aprender.
    Realmente a questão do amor platonico tem esse factor, o de "endeuser",idolatrar o foco do amor dedicado e fechar toalmente os olhos aos defeitos.

    O meu conceito é que nossos defeitos são de certa forma a qualidade que equilibra-nos como seres frageis em quanto humanos e que difere-nos dos outros seres vivos.
    Parece uma discrepância de certa forma, mas são justamente esses defeitos que constroi a originalidade da nossa personalidade, o que faz de cada um singular.

    Obviamente que temos que esculpirmos, lapidar-mos o mais que pudermos com boa vontade, com humildade e sobretudo honestidade para que tais defeitos não sobrepube as qualidades e venha a ferir a quem amamos, a quem rodeiam-nos e principalmente a magoar a nós mesmos.

    Foi um prazer visitar teu espaço Augusto.
    Minhas sinceras congratulações.

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  13. otimo texto, por mais que seja o contrario, as pessoas so veem o que quererm ver, o que já estão predispostos. passando para te desejar uma belíssima semana.
    Um abraço carinhoso

    Paty Alves
    Ágape Amor Verdadeiro
    Patyiva
    Vou Conseguir

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  14. Bom dia !!!
    Um texto de grande valor, aprendi o que é amor platonico, aqui vc se expressa bem eu gostei bjusss
    Abraços com carinho
    Rita!!!

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  15. Excelente post. Adorei o texto, muito bem estruturado e hipnotizante.
    Descobri teu blog e acho que vou ficar um bom tempo por aqui!
    Parabéns pela iniciativa.
    Abraços

    http://www.claudio-da-silva.com/projetos-educativos.html

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  16. Adorei o seu post.
    Desde que me conheço por gente, sempre dei prioridade a beleza da alma, das qualidades intrínsecas das pessoas. Apesar de ter sido muito bela quando jovem, nunca me expus meu corpo a ninguém. Casei-me por conveniência, pois queria mudar para uma metrópole, os homens me assediavam na rua e no trabalho, mas meu marido me bastava. Morreu, fui conhecer o amor aos 44 anos, ao 45 me casei e sou uma mulher muito feliz e realizada.
    Sou uma pessoa muito respeitada na cidade eu acredito que cada um vê a beleza a seu modo, pois ela morre e o que resta? O amor, o comprometimento, o carinho, o choro, as angústias de ver o outro sofrer. Se tudo isso se resume na perfeição do amor. Eu amo.
    Beijos no coração
    Lua Singular

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  17. Nossa que texto lindo..
    Falar do amor e da forma de amar é sempre muito bom né?
    Encontrar na pessoa que amamos os seus pontos positivos que nos atrai, que nos cativa.. isso faz com que os defeitos que todos nós temos, se tornem pequenos.

    Amar o interior pra mim é algo muito importante.. porque o que se tem por fora, na minha opinião é passageiro.. ninguém fica belo pra sempre.. o tempo transforma a beleza física.. mas o que temos por dentro, o tempo só melhora.. e isso é o belo do amor..

    Você sempre com textos lindos.. e muito bem escritos..

    Um beijo carinhoso e um dia mega especial..

    Amei o René rsr

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  18. Penso que no amor real os defeitos do outro acabam sendo aceitos com o tempo.O amor platonico não tem espaço para a imperfeição.Um excelente texto e vc sempre encontra temas interessantes pra gente!bjs e boa quinta,

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  19. Professor boa tarde, muito interessante o texto. "
    linda flor na imagem!

    Daí, que a concepção platônica do amor ideal implica uma justificativa para centralizar os valores da vida única e exclusivamente no amor humano, sem considerar todos os demais valores..."

    Excelente!
    Uma semana iluminada a ti.
    Um grande abraço!

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  20. Sabe Augusto, o filósofo estava certo, pelo menos no que fala do verdadeiro amor ser desinteressado, pois o verdadeiro amor fica feliz em ver o ser amado feliz mesmo que seja ao lado de outrem, jamais aceita prendê-lo a seu lado e não vê-lo plenamente feliz, este para mim é o verdadeiro amor, beijos Luconi

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  21. Oi Augusto, estou bem obrigada.
    Agradeço as suas palavras.
    E concordo com você; realmente há uma cultura muito egoista.
    Um grande abraço!

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  22. Boa tarde meu querido amigo!
    Passando para abraçá-lo neste dia especial e dizer... A verdadeira amizade deixa marcas positivas que o tempo jamais poderá apagar. Um FELIZ DIA DO AMIGO. Desejo que a felicidade venha em profusão para alegrar o teu sábado.
    Beijos com carinho e minha sincera amizade
    Gracita

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  23. Hey, Augusto! Obrigada pela visita. Interessante este seu texto! Pra mim, as visões se complementam... Nada é de todo perfeito e tudo ensina. As qualidades, o que chamamos defeitos... Uma ótimo domingo pra você.

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  24. Olá!Boa noite
    Augusto
    Como vai?Comigo, bem!
    Vim aqui retribuir suas palavras tão carinhosas no blog da Patricia...Muito feliz por isso!
    Obrigado!
    Bela semana
    Abraços

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  25. "O mais belo triunfo do escritor é fazer pensar os que podem pensar."
    Amigo escritor, não poderia deixar de passar aqui para te parabenizar pelo dia do escritor, já é noite, mas não me impede de te desejar muita saúde e inteligência para que continues a escrever divinamente como escreves.
    Gosto muito de um pensamento de Paul Claudel "Os grandes escritores nunca foram feitos para se submeter à lei dos gramáticos, mas para imporem a sua”. E você faz isto muito bem. Parabéns! Felicidades!
    ABRAÇOS DA AMIGA LOURDES

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  26. Bom , hoje em dia vemos que a maioria pessoas principalmente os jovens não pensam muito dessa maneira pois veem primeiramente a beleza física ao se atraírem e se apaixonarem . Más depois de um tempo vemos que muitas delas se decepcionam pois a beleza não é tudo o que realmente desejamos, porém pensamos que é . Eu quero dizer que temos que olhar a beleza sim pois ela é que atrai primeiramente , más temos que nos identificar com a pessoa desejada pois depois de um tempo toda essa beleza física vai embora e o que fica é apenas o caráter da pessoa e as qualidades que se identifica com a outra :)

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