sábado, 1 de junho de 2013

Vergonha anunciada?

Homero foi o narrador da Ilíada, poema épico sobre a guerra que envolveu os gregos e os troianos. Considerada por muito tempo uma narrativa fantasiosa e mítica, mostrou que havia muita verdade em seus meandros. As ruínas da cidade de Ílion (Tróia) foi descoberta, assim como suas famosas muralhas, afrescos, jóias, sistemas de água e de saneamento e um plano diretor de fazer inveja.
Os reis de Ílion, Príamo e Hécuba, tinham três filhos, Cassandra, Heitor e Páris (aquele que raptou Helena e causou a guerra). Cassandra, uma jovem de magnífica beleza, era devota servidora do deus Apolo. Tão primorosa em seus afazeres como sacerdotisa que o deus se apaixonou por ela e lhe ensinou os segredos da profecia. Porém, ela negou-se a dormir com o deus apaixonado, e ele, por vingança lançou-lhe uma maldição: ninguém jamais acreditaria nas suas profecias ou previsões. Foi considerada louca ao tentar avisar os troianos sobre a queda de sua cidade frente aos espartanos. A falta de credibilidade de suas previsões levou à queda e consequente destruição de seu povo e ela passou à história como a pitonisa das desgraças.
Alguns séculos se passaram e a cidade de Roma despontou como o centro do mundo. Tão grande e poderosa, atraía pessoas humildes e de poucos recursos de todos os cantos do império. Acumulavam-se nas periferias em condições miseráveis e eram exploradas em trabalhos braçais de pouco retorno. Os ingredientes eram perfeitos para iniciarem revoltas sociais de grandes dimensões.
Para evitar ou conter as revoltas e manter a situação, os mandantes romanos optaram por uma solução paliativa, que envolvia a promoção de vários eventos para entreter e distrair o povo dos problemas mais sérios, além da distribuição de trigo. Essa estratégia, criticada pelo poeta Juvenal, em suas Sátiras, ficou conhecida como “política do pão e circo” (panis et circenses).
A prática garantia que elite romana tivesse tranquilidade e que a plebe não morresse de fome e muito menos de aborrecimento. A vantagem era que, ao mesmo tempo em que a patuleia ficava contente e apaziguada, a popularidade do imperador entre os mais humildes ficava consolidada devido à sua magnanimidade. Não é à toa que o imperador era considerado um deus. Mas o custo desta prática foi imenso, resultando na elevação dos impostos e sufocando a economia do Império.
Outros séculos se passaram. Por aqui, os impostos sufocam o povo e inibem os investidores, a inflação está sem controle, a plebe se aglomera em torno dos grandes centros e a insatisfação se instala. Também para conter a sanha da patuleia, há poucos dias vista no assalto aos caixas motivado pelo boato que a bolsa família seria extinta, grandes coliseus estão sendo erguidos para exibir os números circenses futebolísticos.
Alguém consegue imaginar a avalanche de dinheiro público que está sendo desviada para produzir esses circos de concreto? Que daria para construir inúmeros hospitais e melhorar as condições das escolas ou até de construir centenas delas onde elas nem existem em projetos? Que as bolsas isso e bolsas aquilo, vagas para idosos e deficientes, cotas para minorias, vales transporte ou alimentação, bônus em tarifas e outras pequenas bondades não representam o pão nosso de cada dia?
Alguém consegue imaginar o tamanho do alvoroço quando, em meados de 2.014, milhares de estrangeiros adoradores do espetáculo mais assistido na Terra desembarcar aqui em Pindorama? Eles pouco se importarão com as diferenças sociais, a falta de educação do povo, os preços exorbitantes das comidas, a falta de informações, os aeroportos em caos e os seus pertences desviados, a falta de vagas nos hotéis, o sistema de comunicação inviável, energia em curto e outros probleminhas do gênero. Reclamarão um pouco, mas logo se esquecerão estando num estádio lotado. Esse tipo prolifera em todos os rincões do Globo. Em Terra Brasilis, Cassandra morreria seca de inveja. Nem ela faria previsões tão funestas.





13 comentários:

  1. Ainda bem que ela não está aqui, pq se fizesse uma previsão iria presa por abuso do poder....pra vc ver que desde que o mundo é mundo nada foi corrigido ainda.
    E nem vai temos muitas Cassandras
    Mas pouco que se importa
    Um post valioso
    Abraços de bom final de semana
    Bjuss
    Rita!!!!

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  2. Oi Augusto :)
    Muito importante essa analogia que vc fez sobre a história da Ilíada e o Brasil.
    Qualquer semelhança com a nossa realidade,não é mera coincidência...vivemos um drama humano semelhante.
    Sua brilhante crônica me fez lembrar também do inteligente discurso de Rui Barbosa no senado em 1914.Lembra?!
    Cabe exatamente na sociedade atual.
    Bjs \o/

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  3. Olá Augusto, muito bom seu texto, nem dá mesmo para imaginar como será?!
    Amei a parte onde descreves sobre Roma antiga, Guerra de Tróia, li o livro "O Canto de Tróia" amo ler sobre mitologia, mas a sua comparação por aqui vai longe, nem é possível, São Paulo está de um jeito que nem se pode mais sair de carro,tudo engarrafado, colado, parado, nem sei como farão, ai ai ai!!!
    Abraços!

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  4. Augusto:
    Enquanto permanecer o favoritismo por um governo paternalista, vamos continuar a vivenciar exatamente a mesma situação da “política do pão e circo."
    Bjs.:
    Sil
    http://meusdevaneiosescritos.blogspot.com.br/

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  5. É meu amigo eu você e outros tantos reclamam enquanto a maioria se cala. Nosso grito parece que não está ecoando como deveria. Outras vozes precisam juntar às nossas vozes. A pergunta que fica é: O que faremos? Abraço

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  6. Olá Augusto meu querido amigo
    Tantas histórias... tanto tempo se passou. Lendo a sua brilhante analogia temos a certeza que estamos vivendo um caos cultural, político... No Brasil se vive todos os tipos previsíveis e inimagináveis. Temos a impressão de que estamos ainda na idade da pedra. Aqui não precisamos das previsões de Cassandra, o caos está diante dos nossos olhos e infelizmente nada é feito para mudar esse quadro de pavor que nos amedronta.
    Um domingo de paz e harmonia.
    Beijos de saudades
    Gracita

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  7. Augusto.Olha eu aqui outra vez.

    Esse caos total poderia serevitado se o povo soubesse,realmente,o que significa cidadania e se o governo quisesse que melhorasse.

    Mas não interessaa eles,já que existe o futebol e carnaval para enganar os incautos!

    Excelente seu blog,amigo!

    Tem conteúdo!

    Beijos e lindo domingo


    Donetzka

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  8. Importante recado, Augusto.

    Chega de pão e circo!

    Ótima semana para você!

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  9. Muito bom mesmo Guto acho que vamos passar vergonha afff....

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  10. Achei muito interessante a tua associação com o que estamos vivendo HOJE com o pão e circo de Roma. Fez todo o sentido, achei muito inteligente. Um excelente ponto de vista!

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  11. Boa tarde, Augusto!

    Devorei o seu texto.

    Não sei se a História se repete, ou não, mas acontecimentos muito similares, surgem, de novo.

    Pois é, Cassandra e o poder, sobretudo do sexo, e do sexo masculino. Continuam a existir Apolos, e Cassandras caladas, vítimas.

    Quanto ao seu Brasil, não devo, nem posso me pronunciar.
    Os homens adoram futebol, e que se dane o resto (mais favela, menos favela, mais assalto, menos assalto).

    LAMENTÁVEL, pensar, assim.

    Como tu sabes, mudar mentalidades leva séculos, e portanto, vamos ter ainda por muito tempo, essas aberrações.

    Resto de dia feliz.
    Beijos da Luz.

    Afetos e Cumplicidades. Obrigada!

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  12. DE TODO MODO OS ASSUNTOS ESTAO RELACIONADOS CERTAMENTE AO MEU COTIDIANO debora pinheiro 2g

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