domingo, 10 de fevereiro de 2013

O mito de Sísifo


Sísifo era um pastor de ovelhas e filho de Éolo, o deus dos ventos. Era tido como a pessoa mais ardilosa que já existiu. Morava num povoado chamado Éfira e, ao melhorar as condições do lugar, passou a chamá-lo de Corinto, que mais tarde se tornou uma grande cidade. Casou-se com Mérope, filha do deus Atlas e que compõe uma das plêiades.
Um dia, Sísifo percebeu que seu rebanho diminuíra. Estava sendo roubado. Então, marcou suas ovelhas, seguiu o rasto delas e foi dar na casa de Autólico. Arrolou testemunhas da ladroagem e enquanto os vizinhos discutiam sobre o roubo, rodeou a casa em busca de mais alguma ovelha e encontrou a filha do ladrão, Anticleia. Seduziu-a e a engravidou, vingando-se do malfeitor.
Voltando para casa, Sísifo, que andava sempre escondido, presenciou Zeus, o deus do Olimpo, raptando Egina, filha de Asopo. Não deu outra, aproveitando-se do fato, Sísifo, em troca da construção de um poço para sua cidade, entregou o deus sedutor. Claro que Zeus ficou sabendo que Sísifo o tinha dedurado, então pediu que seu irmão Efaístos o levasse para o Hades, mundo subterrâneo onde viviam as almas condenadas.
Pressentindo a fúria de Zeus, Sísifo pede à esposa que não o enterrasse após sua morte e, chegando ao Hades, arma uma cilada para Efaístos e o aprisiona. Conversa com Perséfone, a esposa do deus, e a persuade a deixá-lo voltar e organizar o seu funeral, além de punir os que negligenciaram seu enterro. Ela lhe concede a volta por apenas três dias. Mas, voltando à superfície, ele passa a viver normalmente com sua esposa, como se nada tivesse acontecido.
Vendo aquele absurdo, pois ninguém deveria enganar a morte, Zeus ordenou que Hermes o conduzisse novamente ao Hades e que lá recebesse um castigo exemplar. Deveria rolar uma enorme pedra morro acima, até o topo. Porém, chegando lá, o esforço despendido o deixaria tão exangue que a pedra se lhe soltaria e rolaria morro abaixo. No dia seguinte, o processo se daria novamente, e assim pela eternidade, como forma de envergonhá-lo pela sua esperteza em querer enganar os deuses e a morte.
Esse mito narra o esforço inútil de uma pessoa, seu árduo e rotineiro trabalho, que nunca será concluído. Também fala do desejo humano de ser eterno, como os deuses, vencendo a morte.
Quantas pessoas estão rolando pedra morro acima? Quantas insistem num caso que nunca terá solução? Ou teimando em mudar outra pessoa para se satisfazer? Exercendo uma função rotineira e vazia? Quantas se acham num martírio sem fim? A maioria? Quantas vivem sob o domínio das ideologias sem questioná-las? Quanto dinheiro é gasto no inútil esforço de parar o tempo e se tornar jovem para sempre?
Até aqui tudo parece ser absurdo, pois quando se tenta reduzir a impossibilidade do mundo a um princípio racional e razoável, nada faz sentido. Mas, levar a sério até o que é absurdo, é reconhecer a contradição entre o desejo da razão humana e da insensatez do mundo. Sem o homem, não há absurdo. Então, por que viver uma vida vã e inútil? Ora, o que conta não é a melhor vida, mas como se deve vivê-la. Daí a liberdade. Todavia, para a maioria, ela também é um absurdo e libertar-se é preciso.

15 comentários:

  1. Estou gostando demais de conhecer esses mitos através de seu blog!Mais uma história interessante e é legal sua reflexão final que nos leva a pensar tb:que pedras ando carregando morro acima? Isso é o que me questionei!Bjs e boa semana!

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  2. Oi Augusto,td bem?!
    O mito de Sísifo é questionador...faz a gente ficar pensando em valores morais e numa rotina maçante e absurda que muitas vezes vivemos.
    Eu penso que,quem questiona as ideologias dominantes e não é conformista,consegue mudar o cotidiano e alterar a vida;
    afinal,como vc tão bem lembrou:'libertar-se é preciso'.
    Um abraço \o/

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  3. Olá! Ano passado fiz um trabalho sobre O Mito de Sísifo, de Albert Camus. A leitura desse livro foi bem interessante e despertou grande reflexão. Transformamos a pedra que Sísifo carrega montanha acima todos os dias, em nossa rotina de trabalhos repetitivos e sonhos insaciáveis. Quando por fim nos damos conta que nossa existência é absurda, isto é, que uma razão profunda de viver mostra-se inconcebível, então, despertamos. A partir desse ponto, os caminhos disponíveis apontam ao suicídio, à esperança ou à revolta. O indivíduo que escolhe o terceiro caminho constitui o homem absurdo, e as conseqüências que se seguem a aceitação da sua absurdidade, são a revolta, a liberdade e a paixão pela vida.

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  4. Augusto,

    Esta analogia da mitologia de Sísifo com as insistências que temos em persistir em algo que não tem solução foi excepcional. Vejo um filme passando na minha cabeça. Inspirador, parabéns.

    Abraços,

    Diego

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  5. Oi Augusto.
    Amo ler a mitologia grega. E você usou com sabedoria o mito para esta belíssima comparação. Uma bela reflexão e um excelente aprendizado. Beijos de boa noite e um abençoado feriadão.
    Gracita

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  6. Olá Augusto,

    Obrigada pela gentileza de sua visita em retribuição à minha passagem pelo seu outro espaço.
    Vejo aqui um blog muito interessante, com excelentes temas e reflexões.

    Aprecio a mitologia grega, embora não tenha largos conhecimentos a respeito. Recordo-me mais do que me foi passado na época de estudante. Sua bem elaborada postagem enriqueceu os meus conhecimentos. Doravante, quando for mencionado o "trabalho de Sísifo" irei me lembrar que o mesmo se refere à tarefa que envolve esforços inúteis e repetitivos. E como nos perdemos entre estas tarefas, esquecendo-nos de nossa liberdade de escolha que poderá nos levar a viver a vida com maior plenitude, utilizando nossa criatividade, bom senso e poder de questionamento.

    Excelente analogia e reflexão.

    Ótimo feriadão carnavalesco.

    Abraço.

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  7. Olá, conheci seu blogue através dos Educadores Multiplicadores e gostei muito de suas postagens. Estarei seguindo e acompanhando as próximas postagens. Eu também estou nos Educadores Multiplicadores na área da História com o Construindo História Hoje, ficaria feliz em receber sua visita. O endereço do blogue:

    http://www.construindohistoriahoje.blogspot.com.br

    Até mais,

    Leandro Claudir

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  8. Nós a rolarmos montanha a cima as pedras de nosso dia a dia, o peso do que somos e os pesos que almejamos ser.

    tudo o que possuímos é a beleza da efemeridade, e o saber que tudo é "vaidade, e um esforço para alcançar o vento..."

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  9. Muito reflexivo o mito! Gostei! Libertar-se é preciso, e possível! Abraços! Ah, valeu pelo comentário em meu blog!

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  10. Essa postagem esta simplesmente sensacional...além de aprender um pouco mais sobre mitologia grega, também me fez refletir.

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  11. A mitologia vive mais em nós do que imaginamos...

    Belo texto!

    Bjos

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  12. Mitologia Grega é meu sonho de consuma em leituras, adoro saber tudo
    e como me atrai esse tipo de coisa nossa fico aqui de boca aberta em ler
    e vc expressa bem nas postagens
    Ameiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii
    Bjussd e bom domingo
    Rita!!!!

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  13. Gostei muito desse mito, até porque ninguem vive pra sempre!
    Angela 2ºA

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  14. Gosto muito de Albert Camus e também de mitologia grega. O texto está muito bom, apenas uma observação: Hefaistos ou Hefestos não era irmão de Zeus, era filho. O irmão de Zeus era Hades, o deus do mundo inferior e dos mortos.

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  15. Sísifo errou, Zeus também mas como o segundo era o deus dos deuses sentiu-se no direito de punir o outro, absurdamente humano!

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