quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

O mito de Mandi


O jovem cacique perdeu sua esposa durante um parto muito difícil. Todavia, sua filha sobreviveu e, como chorou por muito tempo a perda de sua amada, deu o nome à sua filhinha de Maraí, que significa “filha da água”, ou seja, das tantas lágrimas derramadas.
Maraí cresceu. Era uma garota inteligente, meditativa e todos admiravam sua beleza. Quando entrou na adolescência, foi para a casa das moças, de onde sairia assim que completasse os quinze anos. Estaria educada para ser uma boa esposa e mãe, além de apta para se casar. Pelo costume, que vigora ainda hoje em muitos povos indígenas do nosso país, Maraí deveria ser apresentada ao povo e escolher um de seus pretendentes.
Durante a noite que antecedeu sua maioridade, Maraí teve um sonho diferente. Sonhou que estava em sua rede, quando viu descer do céu um guerreiro vestido de marrom escuro. Assim que se aproximou dela, o seu capuz caiu-lhe aos ombros e ela pode mirar uma face tão branca e brilhante como a luz da Lua. Então, o estranho visitante a envolveu por completo e ela, ao invés de se assustar, sentiu-se plenamente aconchegada a ele.
No dia seguinte, mesmo em meio à festividade para a apresentação das moças, sentiu-se diferente e não conseguiu escolher nenhum dos pretendentes, para desgosto de seu pai. Porém, o pajé percebera que Maraí estava escondendo algo e pediu ao cacique para falar com ela em particular. Ela confessou que tivera um sonho estranho, contou ao pajé que a Lua a visitara como mulher e, por isso não poderia escolher um rapaz para se casar. O pajé lhe explicou que Jaci, a Lua, era o princípio masculino e também lhe confessou que tivera um sonho parecido, que se encontrava no meio da taba e que vira uma luz penetrar na casa das moças. Mesmo durante o sonho, sabia que algo estranho estava acontecendo e teve o pressentimento que Jaci engravidaria uma das moças.
Conversou com o cacique e explicou para o povo que Maraí estava grávida da luz de Jaci, que um novo tempo se aproximava e que esperassem pelas mudanças. Mas, desconfiadas, as pessoas não só não acreditaram como passaram a desrespeitar o cacique e a não trabalhar mais. Começaram a passar fome. Maraí, com medo e vergonha, não saía da casa de seu pai e sua barriga cresceu. Ao final das nove fases da Lua, começou a sentir as dores do parto. As mulheres que a ajudaram se surpreenderam quando viram que a menina que acabara de nascer era tão branquinha que até emitia uma luz, parecida com a da lua.
O povo então acreditou nas palavras do pajé e a menina passou a ser adorada como uma divindade. Deram-lhe o nome de Mandi, mas ela adoeceu e acabou morrendo em poucos dias, deixando todos amargurados. Maraí ficou desconsolada e enterrou sua filhinha no chão de sua oca. Não saía de perto de sua sepultura e, ajoelhada, deixava cair seu leite sobre ela, desejando que sua amada filha voltasse à vida. Um dia, Maraí percebeu uma fenda na terra e viu que um broto vertia dela. Chamou seu pai e o pajé e lhes disse que sua filha estava querendo sair da terra, mas resolveram esperar. Em pouco tempo se transformou num arbusto. Enfim, resolveram remover a terra e encontraram apenas grossas raízes que, descascadas se mostraram muito brancas, como Mani, e que, ao serem raspadas, exalavam um aroma muito agradável.
Todos acreditaram então que Mandi era a filha da Lua e que viera se transformar no principal alimento do povo. Esse alimento recebeu o nome de mandioca, que significa ‘casa de Mandi’.

8 comentários:

  1. Nunca tinha ouvido essa lenda...é simplesmente linda.

    ResponderExcluir
  2. Nossa,que conto mais lindo,Augusto!Não conhecia e adorei saber!bjs e boa quinta!

    ResponderExcluir
  3. Augusto, receber sua visita em meu espaço é um grande prazer, se tenho algo a ensinar, com certeza aqui aprendo também e muito, isso é uma linda troca!
    Amei essa lenda, é maravilhosa, não a conhecia!
    Adoro a "casa de Mandi", que delícia que é mandioca!
    Grande abraço!
    Ivone

    ResponderExcluir
  4. Boa noite Augusto :)
    Eu também não conhecia essa lenda.
    Achei muito legal.
    Para o povo da tribo,esse alimento foi um presente,pois saciou a fome deles.
    Até!!

    ResponderExcluir
  5. O bacana é que você não se restringe a mitologia grega. Adorei este mito, não sei se passou despercebido e não li, mas não consegui identificar de que tribo que é. Seria Tupi?

    Abração Augusto.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Sim Diego, é uma lenda tupi sobre a origem da mandioca. Ela, juntamente com o milho e as batatas, forma a base da alimentação da maioria dos povos do povo tupi.

      Excluir
  6. Nossa,achei muito lindo esse mito! Estou sem palavras

    Angela 2ºA

    ResponderExcluir

A configuração de comentários foi ativada.

Obrigado por passar neste espaço.
Deixe sua participação.