quarta-feira, 12 de setembro de 2012

Não me falta coragem

A imensa copa do jatobá projetava uma sombra compacta. Observei as algas do lado sul de seu tronco, onde o Sol jamais atingiria e me localizei no espaço. Um joão-de-barro estudava os alicerces de um futuro ninho num de seus galhos. Arriei as tralhas de pescaria e pretendia ficar por ali mesmo quando ouvi a voz de meu pai, já mais adiante e perto do rio. Estava quente demais e talvez na beira da água o calor seria aplacado pela umidade. Ajeitei-me, preparei uma vara e a isca, joguei o anzol na água e esperei. Pescar exige espera e meu pai era mestre nisso. Mas meus olhos corriam as árvores, as aves, as libélulas e pegava um peixe mais por acaso do que pela atenção que deveria dedicar. Então vi um bando de urubus planado em círculos e fiquei imaginando quanto seria maravilhoso voar e observar tudo lá de cima. A cada rodada, eles subiam mais, aproveitando um fluxo de ar quente e nem sei quanto tempo levou para que ficassem como pontinhos lá naquele azul infinito. Meu pai sabia que minha imaginação não tinha rédeas e observava calado meu desejo de voar. Eu divagava entre essa possibilidade nas aves e a relacionava com um pequeno quadro, onde se via a figura de um anjo cuidando de algumas crianças, na cabeceira da cama. Minha mãe dizia que era um anjo da guarda. Eu não a contradizia, mas via naquele ser uma impossibilidade de ser. Duas pernas, dois braços e duas asas somavam seis membros. Além disso, eram invisíveis e suas asas eram curtas demais para sustentar um corpo tão grande. Mas, independente das contradições, meus doze anos já me permitiam querer ser um anjo invisível, voar pela imensidão e observar tudo do alto. E ainda ter consciência do que estaria fazendo, ao contrário dos urubus. Eu nunca parei de querer voar, nem de fazer, de ler, assistir, viajar para lugares distantes e conhecer outras pessoas e culturas. Enveredei pela pintura, teatro, artesanato, literatura e mais vivi sem os pés no chão do que finquei raízes que me prendessem a um determinado lugar. Todavia, limitado pelas impossibilidades de voar, correr bastante, nadar, escavar, subir nas árvores, defender-me e atacar, como fazem os outros animais, sobrou desenvolver minhas capacidades intelectuais, porque fiquei sabendo que ao humano resta essa característica e que se ela não for desenvolvida, nem humano ele pode ser. Nunca quis me esconder na maioria, porque os humanos tomaram de assalto a própria natureza, interferiram no seu ritmo e submeteram quase todos os outros seres vivos. Multiplicaram-se aos milhões e agora estão no comando do planeta. Há tempo, sabendo sobre e tendo optado por uma conduta ética, acabei perdendo muitas oportunidades, mas nunca perdi a coragem de realizar algumas coisas, mesmo não tendo possibilidades financeiras para tal. Sei que deixei muitos desejos pelo caminho, mas não parei de sonhar. Alguns até deixaram de ser sonhos porque o amadurecimento os transformou em outras possibilidades e não há nada que eu gostaria de fazer que me envergonhe e que não tenha coragem de fazê-lo.

13ª BC – O que gostaria de fazer, mas não tenho coragem, do blog Café entre amigos.

22 comentários:

  1. Muito bom mesmo, concordo o medo as vezes nos impede de viver.

    ResponderExcluir
  2. Oi Augusto :)
    Todo ser humano teme algo,e isso é natural.
    Mas vc é bem corajoso,afinal escreveu que 'não há nada que eu gostaria de fazer que me envergonhe e que não tenha coragem de fazê-lo'.
    Deve ser uma ótimo,sentir-se dessa maneira.
    O texto tá um primor,muito legal de ler.
    abraços \o/

    ResponderExcluir
  3. deseja e não tem coragem....

    Que não passa por isso... sua Blogagem está divina um texto bonito
    mostrou ai tudo que fez, fez e gosta
    Parabéns
    Bjuss
    Rita!!!

    ResponderExcluir
  4. Parabéns pela sua participação, seu texto ficou muito legal.Que maravilha se sentir completo e realizado. Um abraço.

    ResponderExcluir
  5. Linda participação!
    http://anabelaemblogagenscoletivas.blogspot.com.br/2012/09/gostaria-de-fazer-mais-nao-tenho-coragem.html

    ResponderExcluir
  6. Um texto maravilhoso Guto admiro pessoas assim livres e que não deixam de viver algo por medo, parabéns.

    ResponderExcluir
  7. Ai Augusto sempre que entro aqui eu me encanto com o que vejo..
    Ler seus textos é maravilhoso..
    Não tem como parar.. e já fico imaginando que a próxima frase será ainda mais linda..

    É sempre assim, ao escrever você coloca tanto sentimento que podemos senti-lo.. e se torna uma leitura prazerosa.. rica..

    Olha eu me tornei fã dos seus pensamentos e de suas vivências, porque sei que sempre descreve pedaços de sua historia..

    Um história de vida maravilhosa de uma pessoa que dá valor a vida de verdade e a coisas que realmente acrescentam ao nosso caráter.

    Ler você falando sobre seus sonhos, seus medos, seus desejos é realmente espetacular..

    Eu sei que me torno repetitiva sempre que comento em seus posts, mas não tem como não dizer o quanto admiro a pessoa "Augusto Sperchi"

    Uma ótima noite
    Sheila

    ResponderExcluir
  8. Que belo texto Augusto. Medo nos impede de viver, mas como seria a vida sem ele? Acho que ñ teia graça

    ResponderExcluir
  9. Se texto me fez lembrar quando era garoto e batia a beira dos rios kkk olha a inconsequência não tinha medo de nada mesmo.

    ResponderExcluir
  10. Olá Augusto,

    Um belo texto de coragem, também me considero assim, mas tem momentos que ela falta e faz parte da nossa natureza!

    Abçs

    ResponderExcluir
  11. Augusto, como sempre, seus textos fascinam!O medo é uma prisão que se não cuidarmos nos prende a alma e o coração.
    Bjim !

    ResponderExcluir
  12. Pela profissão que escolhi na vida confesso que sou corajoso, mas para coisas que envolvem altura sou covarde assumido.

    ResponderExcluir
  13. Augusto,que legal o seu texto!Nada como não sentir medo de realizar aquilo que desejamos!Gostaria sim das indicações de livros que falou em meu blog!Obrigada!bjs,

    ResponderExcluir
  14. Gostei do texto que bom não ter medo eu tenho de muitas coisas kk mas já superei muitos obstáculos na minha vida que outra pessoas nem imaginam e por muito menos teriam enlouquecido.

    ResponderExcluir
  15. Oi Augusto
    Muito bom o texto, seus textos sempre são poéticos, já percebi isso, como eu disse, não me considero uma pessoa medrosa, tanto que meu tive até uma certa dificuldade em encontrar os medos kkkkk, com relação ao que falou da tatuagem acho que é modismo quando se é jovem, mas eu já tenho quase querenta anos, já sei bem o que quero e o que não quero para mim. Enfim, vc fugiu totalmente a regra novamente na blogagem coletiva, e ficou muito legal.
    Bjos. Fique com Deus!

    ResponderExcluir
  16. Oi Augusto. Ler seu texto é um deleite. E como é prazeroso saber que você corre atrás dos sonhos e concretiza-os e quando eles se tornam inviáveis você consegue redirecioná-los para outras possibilidades. Um prazer te ler. Tens o dom da tessitura e nos encanta com sua filosofia de vida. Um abraço

    ResponderExcluir
  17. Augusto, boa noite!

    com referencia a sua pergunta,nem preciso responder; basta você dar uma olhada nos seguintes links:

    Copie-os.

    http://revistagloborural.globo.com/GloboRural/0,6993,EEC1709673-4529,00.html

    http://globotv.globo.com/rede-globo/globo-rural/v/aprenda-uma-receita-de-pao-de-ora-pro-nobis-mais-nutritivo-que-o-tradicional/1871930/

    Abraço

    ResponderExcluir
  18. Olá Augusto,
    Quem de nós não tem medo de alguma coisa? O medo é um sentimento intrínseco ao ser humano e talvez graças a ele nossa espécie pôde progredir e evoluir, pois se dependêssemos apenas de nossas forças perante outros animais mais fortes estaríamos perdidos em algum lugar da árvore genealógica. Por isso, gostei quando disse que não deixaria de fazer o que realmente desejasse por conta do medo. Afinal ele está ai mas devemos superá-lo.

    Abraços, Flávio.
    --> Blog Telinha Critica <--

    ResponderExcluir
  19. Augusto quem não gostaria de voar ou então ser um anjo invisível, nossa até os adultos apesar de não admitirem, eu gostaria de ter mantido aquela criança que um dia fui viva dentro de mim, mas parece que a dureza do ser humano a apagou. Ah eu sou a Luconi, a Camila que fez dueto comigo é minha raspinha tem só dezoito anos e é meu orgulho, beijos Luconi

    ResponderExcluir
  20. Você voa! Esse texto é a prova disso.
    bjs
    Jussara

    ResponderExcluir
  21. Amei seu Blog! Te achei no Educadores Multiplicadores! Já estou te seguindo! Também já adicionei seu blog no meu! Gostaria que visitasse: www.professoravanucia.blogspot.com! Abraços! estou ligada em suas postagens!

    ResponderExcluir
  22. Acho que todos algum dia ja teve o desejo de poder voar, a vontade de se sentir livre, todos temos desejo de alguma coisa que nao podemos realizar, por que ou o que desejamos só cabe em nossa imaginaçao ou a sociedade em que vivemos nao nos permite coisas tal. Mais com o belo texto desse da pra lever como referencia tentarmos levar uma coisa invisivel para o possivel ... Lais 2°D n°15

    ResponderExcluir

A configuração de comentários foi ativada.

Obrigado por passar neste espaço.
Deixe sua participação.