terça-feira, 26 de junho de 2012

Os heróis da minha infância.

Não passe perto daquela árvore, que lá mora um tamanduá. Nunca tinha visto um tamanduá, mas todos morriam de medo dele. Cuidado com o caipora, que ele dá surra em quem anda sozinho à noite. Tentava imaginar a figura do caipora, mas nada compunha sua imagem. O saci caminha através dos redemoinhos e apronta com gente mentirosa. Como todo moleque, eu mentia bastante e sempre olhava para os lados, me esquivando do vento. Ci, a mãe do mato, castiga quem caça além do que precisa para comer e enche de piolhos  a cabeça dos moleques que caçam passarinhos. Dava coceira na cabeça só em pegar no estilingue. O lobisomem era o Bento, um dentista que levou essa pecha até a morte. Todo mundo afirmava isso e jurava que era verdade. Ainda tinha a pisadeira, uma velha horrível, que pisava no estômago das pessoas que comiam à noite, antes de dormir. O curupira engana pescadores e caçadores. Lembro-me da cara de um sujeito que dizia que ouvira um assovio e vira uma cabeleira vermelha passar por ele enquanto fazia tocaia para uma capivara. Quando se deu conta, havia uma cobra prestes a lhe dar um bote na perna. Foi ele, tenho certeza. Afirmava e exortava a plateia pasma a não caçar lá por umas bandas, perto da mira. A mira era uma nascente imensa e falavam que por lá sumira muita gente. Chamavam a mira também de sumidouro e raras eram as pessoas que iam lá buscar areia fina para limpar as panelas, pretas pela fumaça dos fogões à lenha. Todos esses casos foram vividos intensamente por todos que habitavam na fazenda em que eu também vivi por oito anos e se estenderam por mais dez anos num sítio vizinho. Eles não se descolaram de mim, moleque crescido na roça. Eu não tinha heróis, mas também não precisava deles. Havia muita gente honrada que inspirava os comportamentos das crianças e jovens. Todas mereciam e tinham o respeito de todos. Elas faziam as vezes dos super-homens, das mulheres maravilhas, dos paladinos da justiça. No ano de 1.970, com catorze anos eu era o Pelé, quando batia uma pelada num campinho no meio do pasto, e o Chico Buarque, quando esgoelava sua Banda. Uma tia trazia gibis e revistas do Zorro. Para mim, ávido pela leitura, que me despertava a imaginação para além daqueles horizontes, não escapava nem bula de remédio. Então, devido à aproximação da Copa do Mundo, meu pai comprou uma televisão. A partir daí, de uirapuru solto na natureza fui me transformando em pardal para ser aceito no mundo dito civilizado. Agora vivo nele e continuo não tendo heróis, mas sou admirador de pessoas que foram imprescindíveis para a humanidade, tais como Jesus, Ghandi, Da Vinci, Nietzsche, Van Gogh, Madre Teresa, Beethoven, Martin L. King, Dali, Betinho e poucos outros. Todavia, as penas do pardal ainda escondem o uirapuru, meu verdadeiro herói.

21 comentários:

  1. Uiaaaa desenterrou das profundezas
    esses seres do mato heim Augusto
    kkkkk, mas é verdade heróis a gente tinha nos Gibis mesmo ou essas coisas de lenda do povo, mas gostei da sua Blogagem, falou bonito como sempre
    Abração de boa quarta feira!!!!

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  2. Lindo...me emocionei com seu texto...

    Você não é o Robin (Companheiro do Batman) Mas para mim sempre será um eterno menino prodígio....rs

    Bjos no core

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  3. Ter sido criança em sua época foi um privilegio, como disse não precisava de heróis da tv. Um texto comovente.


    ps: quando fizer o post me mande o link para que eu possa divulgar chuchuuuu não esqueça ok. bjus

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  4. Olá Augusto, seu blog é muito bom, e desde já quero dar-lhe os parabéns. Sou Antonio Batalha, portugues, e deixo-lhe um convite, se desejar fazer parte de meus amigos virtuais no blog Peregrino E Servo. Claro que de seguida irei retribuir seguindo também seu blog. Obrigado e tudo de bom.

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  5. Muito bonito o texto creio que passou a infância em alguma fazenda pelo que entendi.

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  6. Não entendi muito seu texto...kkkk, na infância vc não teve heróis ou eles eram curupira e saci? kkk
    Toda criança tem herói, ou entendi vc não tinha tv e ai não via nada né..hum agora sim, então de adulta é claro que meu herói é Cristo sem duvida, mas de criança tive alguns. Que pena que não viu desenhos eles faziam bem pra gente.



    Caso não seja isso desculpe tá...sou meio leza.

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  7. Nossa! Isso eram história de terror gente, rsrs, se fosse eu, eu já tava cagando nas calças no sítio. Mesmo assim eu gostei do seu texto, bem elaborado e objetivo...

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  8. Pois é Augusto lendo sua postagem fui remetido ao meu passado, até 8 anos de idade tbm era assim livre de tudo não tinha heróis, que saudades que deu.
    Depois na cidade claro tendo acesso alguns filmes e desenhos como toda criança tive alguns heróis kk, mas preferia ter ficado lá na roça pelo menos até uns 18 anos.

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  9. Amigo Augusto, me honra a sua visita ao meu humilde blog. Não me importo que meu amigo não seja evangélico, aliás tenho muitos seguidores que não acreditam em Deus, só não aceito blogs de pornografia, ou de feitiçaria. Desejo tudo de bom,para o amigo e família.

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  10. Para Cristiane Tiago. Olá Cris. Você está enganada, não eram histórias de terror, era uma maneira diferente de se educar e conter os exageros. Disse que não precisava de heróis porque fui criado em meio a gente honrada, honesta. Estes sim foram meus heróis, que me deixaram exemplos de respeito ao próximo e à natureza e a ter sempre educação, em qualquer circunstância.

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  11. Oi Augusto. Me emocionei com o seu texto. Tive uma infância parecida com a sua. Vivi na fazenda até os oito anos. Vivi muitas aventuras deliciosas. conheci o cinema bastante rudimentar antes da Tv . Essa eu já estava mocinha. Os seus heróis merecem aplausos pois através dos sábios exemplos fizeram de você uma pessoa admirável. Adoreeeeiii seu post. Foi um prazer imenso me identificar com as suas vivências.
    Um beijinho com carinho
    Gracita

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  12. Olá Augusto, lindas palavras e belo texto..de uma simplicidade e magia em recordar cada detalhe, parabéns!!

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  13. Outros tempos...época de ouro, como disse os heróis eram as pessoas honradas com a qual convivia. Parabéns por mais esta postagem que nos emociona.

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  14. Eu tive uma infância na cidade e claro além dos heróis da tv que na época era diferentes, algumas vezes foi em sítios de parentes e meus primos eram assim, muitas vezes tinha medo de falarem do saci perere que amarrava o rabo dos cavalos kkkk
    Não é que precisava de heróis mas fico feliz por te-los, me fizeram bem.

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  15. Acho que ficou bravo com minha resposta, eu no começo não entendi sua reflexão e achei que tivesse atacando as pessoas que tiveram os heróis da tv, quando disse que não precisava deles me senti ofendida, depois que vi que estava falando da simplicidade em que vivia, lendas e tudo mais. Não foi minha intenção, acho que não soube me expressar, depois que vi que meu comentário pareceu sarcástico.
    Ainda mais quando colocou essas pessoas que fizeram a diferença para humanidade como exemplo ai que fiquei mais fula ainda, pois parecia que todos que tinham feito essas postagem eram vazios.
    Mas enfim sou lerda mas sei quando erro e peço desculpas. É que as vezes certos textos nos confundem, mas agora entendi.

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  16. Para Maria Eduarda. Não se sinta assim. O texto está de diícil entendimento, confesso, é que está em linguagm figurada. Não fui menino de televisão, apesar de gostar dela. No mais, você tem o direito de comentar como quiser. Se eu não tivesse gostado, não o teria publicado. Será sempre bem vinda, como todos. Da maneira como se justificou, demonstra ser uma pessoa sensível e de boa índole e eu seria injusto em descartá-la, pois é muito importante neste espaço. É um prazer tê-la como seguidora e amiga. Um grande abraço!

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  17. Augusto é verdade na minha época tínhamos livre acesso aos gibis, quando ganhávamos algum era uma festa e a noite me escondia de mamãe para ler aos meus irmãos mais novos, quando ela nos pegava castigo de um mês sem brincar na frente de casa rs

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  18. Oi Augusto!
    Que bonita sua postagem.
    Meus pais também moraram em sítios e sempre comentam sobre esses personagens lendários.
    Eu gostei tanto dessa parte:
    'Eu não tinha heróis,mas também não precisava deles.Havia muita gente honrada que inspirava os comportamentos das crianças e jovens.Todas mereciam e tinham o respeito de todos.'
    Ah,a lista de pessoas que vc admira é de primeira qualidade!Adorei!
    Bjs!

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  19. Olá Augusto, fico muito feliz com suas declarações a respeito do Marquecomx, e como você bem disse, estamos revolucionando a educação através da net. Saiba que sues textos também são excelentes e que irei indicar seu blog a colegas também; temos que espalhar as boas novas aos amigos!
    Muito em breve estaremos com mais novidades: trate-se de um projeto para dinamizar a educação ainda mais, e quando terminarmos o projeto, voltarei aqui para convida-lo para participar conosco. Tenho certeza que irá gostar.
    Quando quiser, já saber: Marquecomx ou simplesmente clique! Abraços.

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  20. Este comentário foi removido pelo autor.

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  21. Oi Augusto.. eu amei o post..
    Muito lindo mesmo..
    E seu espaço tá lindo.. Textos emocionantes..
    Parabéns pelas palavras..
    Seus heróis são perfeitos principalmente o que nos proporcionou estarmos aqui agora..
    "Cristo" o mais importante Herói da Humanidade..
    Amei!!
    Sheila

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