quinta-feira, 26 de abril de 2012

Na contramão da história

O Brasil já possuiu uma malha ferroviária das mais extensas e eficientes do mundo. Mas se deixou levar, embalado pelas multinacionais automotivas e petrolíferas, trocando o certo pelo duvidoso, caro e poluente. As estradas de ferro foram substituídas pelo asfalto (derivado do petróleo). Hoje, o transporte de passageiros e de mercadorias, principalmente o de grãos produzidos no Centro-Oeste e que se destinam à exportação, dá-se quase que exclusivamente através de caminhões. Estima-se que 15% de toda a produção, capaz de alimentar milhares de pessoas, se percam nos solavancos das estradas mal-conservadas. Parece que o destino tupiniquim entra pela contramão da história mais uma vez ao ser aprovado o Código Florestal. A realidade é que os interesses do agronegócio moldaram as decisões dos políticos, em detrimento do que as pessoas desejavam. Eles não foram eleitos pelas madeireiras, pelos criadores de gado e nem pelos grandes latifundiários. Eles não se interessam pelas comunidades que desenvolvem projetos de exploração sustentável no manejo da floresta, com extração de madeira selecionada, borracha, castanhas, especiarias e outros. Pouco se importam com a sobrevivência dos povos indígenas e com os ribeirinhos, que são expulsos de suas terras ou mortos por jagunços, que cobram por cabeça. Nem se lixam pela ararinha azul (só restam dezessete espécimes espalhadas pelos zoológicos do mundo), pelo galo da serra, tamanduá bandeira, onça pintada, pirarucu. Para que servem esses bichos mesmo? A biopirataria rende muito dinheiro também. O Japão até tentou patentear o cupuaçu e a andiroba, tão característicos da grande floresta. As matas ciliares, tão necessárias à conservação dos rios vão se estreitar, os rios serão assoreados, o solo será lixiviado, a fauna ribeirinha vai desaparecer, os peixes não subirão mais na piracema. O pássaro-preto, também conhecido como graúna, está gravemente ameaçado. A soja, o capim e os canaviais se transformam em mares verdes, onde antes reinava o cerrado, uma das biodiversidades mais ricas do mundo. Pascal escreveu: “Que quimera é o homem? Que novidade, que monstro, que caos, que sujeito de contradição, que prodígio! Juiz de todas as coisas, verme imbecil; depositário da verdade, cloaca de incerteza e de erro; glória e nojo do universo. Quem deslindará essa embrulhada.” Se o Brasil não acordar, só nos resta esperar que o canto lamentoso dos camaiurás atinja os corações desses traidores.

3 comentários:

  1. Esse texto é bem triste,se tivesse trens ,acho que não haveria tanto congestionamento..e o pobres animaizinhos vão acabando aos pouco
    O próprio homem destrói a natureza
    Professor Augusto ,cada tema bom
    pra discutir,postar e refletir
    Abraços Rita!!

    ResponderExcluir
  2. Dá um nó na garganta só de pensar em tudo isso.

    ResponderExcluir
  3. O abandono da malha ferroviária pelo governo, com certeza, é um dos maiores descasos. Tudo isso para satisfazer a sanha de ganhar dinheiro das montadoras multinacionais que se instalaram no país.

    Enquanto em países europeus o trem de passageiro é um dos mais utilizados, principalmente, para o transporte de passageiros entre os países; aqui temos temos milhares de quilômetros de trilhos apodrecendo sem nenhuma utilidade.

    O pior de tudo isso, é que foi dinheiro público empregado nas construções dessas ferrovias. Desse jeito vamos sempre ser o país do futuro. Convido-o a opinar em: (http://kidureza.blogspot.com.br/2007/10/pas-do-futuro.html)

    abraço

    ResponderExcluir

A configuração de comentários foi ativada.

Obrigado por passar neste espaço.
Deixe sua participação.