quarta-feira, 17 de junho de 2015

Atalanta

Iaso, rei da Arcádia, já possuía duas filhas e desejava um filho varão. Foi então que nasceu Atalanta. O rei, furioso, mandou que a abandonassem no monte Partênio. Ártemis se apiedou da menina e instruiu uma ursa a amamentá-la. Mais tarde, caçadores a encontraram e cuidaram dela. Assim, ela cresceu e se tornou uma jovem ágil, tão veloz nas corridas que poderia até competir com os deuses.

Borboleta Atalanta (imagens públicas)

Atalanta era uma jovem de estranha beleza. Seu corpo e rosto possuíam traços intermediários entre o masculino e o feminino. Dependendo do ângulo, ora um ora outro. Essa característica sobressaía tanto que ao mesmo tempo causava estranheza e admiração, mas ela não se preocupava em ser considerada uma quimera.
Na época, os primeiros frutos da colheita sempre deviam ser sacrificados aos deuses, mas o rei Eneus, de Calidon, esqueceu-se do dever e, por isso, Ártemis, furiosa com a desfeita, enviou sobre o seu reino um imenso e furioso javali para destruir as plantações. O rei chamou os mais corajosos para lutarem contra a fera e, como prêmio, a pele do monstro. Mas nenhum conseguiu vencê-lo, então Atalanta se ofereceu, lutou e dominou o terrível monstro. Sabendo disso, seu pai a chamou, reconheceu sua paternidade e passou a tratar de seu casamento.
Um dia, questionando o oráculo, foi-lhe revelado que nunca deveria se casar, porque o casamento seria sua desgraça. Mais uma vez, ela não deixou que sua alegria de viver fosse afetada pelo fato de que não seguiria o destino de todas as donzelas gregas. Temendo um destino cruel, ela decidiu se afastar da companhia dos homens e de qualquer contato físico com eles, sublimando sua condição e dedicando-se com afinco aos exercícios físicos, principalmente às corridas de longa distância. Para se divertir, praticava esporadicamente a caça de javalis.
Nem por isso deixava de atrair a atenção dos rapazes, que viam nela um prêmio valioso, e quando um se tornava mais insistente, ela o desafiava a uma corrida e lhe impunha uma condição: se vencer a corrida, eu serei o seu prêmio; mas se perder, o castigo será sua morte. Apesar do desafio mortal, muitos jovens treinavam bastante e se aventuravam numa corrida suicida tentado conquistá-la, mas sem obterem êxito.
Seu melhor amigo era o jovem Hipomenes, que era o juiz em todas as disputas e não se conformava em ver aqueles infelizes arriscando a vida por uma esposa tão inatingível. No começo, até desencorajava alguns deles, sabendo que sua morte era certa. Mas um dia, sem querer, viu-a trocar suas vestes e se preparar para uma corrida. Ficou paralisado ante o corpo escultural de sua amiga, entendeu o valor daquele prêmio e porque muitos pretendentes ainda viriam.
Tomado de um súbito e desconhecido sentimento, que aumentava de intensidade sempre que a via treinando, começou a desejar que todos eles fossem derrotados. Ela parecia mais bela e divina, mais desejável, com os lindos cabelos esvoaçando e as faces coradas pelo esforço em se manter na dianteira dos concorrentes. Parecia que o vento lhe emprestava asas aos pés velozes e os derrotados eram impiedosamente mortos ao terminar a disputa.
Até que um dia, não se contendo e pretendendo o amor de Atalanta, Hipomenes olhou-a fixamente nos olhos e disse: Você vence facilmente esses vagarosos e destreinados. Estou me candidatando à disputa.
Atalanta ficou sem fala ao ouvir a proposta de um rapaz tão jovem, tão seu amigo, e ficou com pena em ter de vencê-lo e ceifar a vida de uma pessoa tão bela. Tentou, com o seu silêncio, fazer com que ele desistisse, implorando mentalmente ao deus que o enlouquecera a demovê-lo daquele intento fatal.
Enquanto Atalanta hesitava se devia ou não aceitar aquela proposta, uma plateia começou a se formar e Hipomenes fixava o pensamento em Afrodite, a deusa do amor, e lhe pedia ajuda, tendo certeza que fora ela que o impelira àquele amor. Ouvindo os sussurros suplicantes do jovem, a deusa apanhou três frutos de ouro de uma árvore encantada de seu jardim e sutilmente os entregou ao concorrente, que já se posicionava na linha de largada, instruindo-o como agir durante a corrida.
A plateia se empolgou e incitou-os àquela corrida louca, mas ao iniciarem, bem depressa o jovem começou a arfar, enquanto Atalanta, como sempre, tomava facilmente a dianteira. Então, ele atirou um dos frutos quase aos pés da pretendida e ela, vendo-o como um prêmio, parou e se distraiu admirando sua beleza. Hipomenes, aproveitando-se daquela folga, ultrapassou-a. Mas ele não era um bom páreo e logo Atalanta o alcançou e o superou.
Já sentindo as pernas trêmulas, a garganta seca e a chegada ainda distante, o infeliz atirou outro fruto. Mais uma vez Atalanta se desviou da meta para apanhá-lo, dando tempo de o trôpego ultrapassá-la. Foi apenas um instante, porque o jovem rapidamente ficou para trás e a linha final já estava próxima. Só lhe restava uma oportunidade e, meio desesperado, invocou o poder divino:
- Oh, minha deusa, faça frutificar sua dádiva. E atirou o último trunfo. Mais uma vez conseguiu alcançar a já quase vencedora e atingir a meta antes dela, caindo prostrado ao chão. Enquanto a plateia carregava o vencedor e Atalanta maravilhada com seus prêmios dourados, Afrodite esperava seu agradecimento já um tanto impaciente. E ele não veio.


Atalanta - Reni Guido - Museu do Prado - Madri

Apesar de os deuses serem imortais, eles sobrevivem alimentando-se da gratidão humana e a omissão daqueles felizes mortais deixou Afrodite indignada. Pediu à deusa Cibele, pronta a punir a ingratidão dos homens, que se vingasse por ela. Os jovens foram instantaneamente transformados em leões e atrelados ao seu carro, onde permanecem ainda hoje. 


A Fonte de Cibeles, situa-se na Praça de Cibeles em Madrid Espanha, junto ao Palácio das Comunicações. Este monumento foi construído no século XVIII e foi baseado num desenho de Ventura Rodriguez de 1782, sobre a deusa Cibele. 

Miltônia Atalanta (Foto Augusto)


segunda-feira, 18 de maio de 2015

Paralaxe

Jura que ama como a inconstância do vento.
Eu finjo que lamento, ela amua e se inflama.
A paz da areia me chama, a ela o firmamento.
Torna assim um tormento, que o fel reclama.
Se o frio desejo e intento, é o calor da chama.
Como ficar na cama com seu ser barulhento?
Com seu tempo lento, que quer tudo e clama,
Inventa e trama quando permaneço atento.
Então, me isento, mas se traveste em drama.
Na cidade, guerra proclama se o campo tento.
Se com cores me apresento enquanto brama,
Contamina o panorama com seu tom cinzento.
Então estou indo, que o amor assim não rima.


sábado, 18 de abril de 2015

Estranhamento

Tudo se torna tão comum que acabamos pensando e nos conformando que tudo sempre foi assim e sempre assim será, porque encaramos o mundo como natural, mesmo que ele não o seja. O cotidiano nos acomoda e nos aprisiona.
O modo como olhamos as coisas no mundo não é neutro, mas sim pleno de conceitos herdados, os preconceitos, advindos do senso comum. Daí a necessidade de quebrar esse modo de ver a realidade porque a visão que herdamos dela, e como a reproduzimos, está equivocada devido aos julgamentos, preconceitos, sentimentos que são influenciados pela mídia, escola, família, religião, partidos políticos etc. Assim, inconformados, temos urgência em aprimorar esse gesto e construir um olhar crítico para a realidade e esse se faz com base no estranhamento do cotidiano.  
Para desenvolvermos um pensamento crítico e autônomo precisamos nos afastar de muitas dessas mediações, temporariamente e aos poucos, colocá-las em foco, para observarmos a realidade e podermos analisá-la, comparar com o que pensávamos antes e chegarmos a novas conclusões. Dessa maneira poderemos formar novos valores ou mantermos os que consideramos que são importantes para nossas vidas.
Porém, o estranhamento deve ser acompanhado pela desnaturalização do olhar, pelo desenvolvimento de uma atitude que evite considerar como natural o mundo que nos cerca, já que a maneira como o olhamos, no mais das vezes, é socialmente construída.
Dessa forma, possibilitamos entender suas nuances e talvez mudar de postura ou opinião, caso esta se mostre estranha. Para todas as coisas que temos contato, desde as mais comuns até as mais imprevisíveis e complexas, tentamos encontrar uma explicação. Assim, baseados no conjunto de dados que acumulamos durante a vida, damos respostas às nossas indagações, porque precisamos dar respostas a tudo e como muitas delas já estão prontas, o passo para a acomodação é curto.

O olhar de estranhamento possibilita uma nova ferramenta para se avaliar as coisas, mesmo sabendo que estamos impregnados de senso comum. Essa ferramenta tem uma base racional, que nos permite distanciar ao máximo de todas as possíveis ideias preconcebidas. É um trabalho demorado, mas recompensador, uma vez que possibilita, dentre outras coisas, derrubar preconceitos e dogmas nocivos.


domingo, 1 de fevereiro de 2015

Puma Punco

No ano de 1.986, estive num dos sítios arqueológicos mais impressionantes da Bolívia, Puma Punco, parte de um gigantesco complexo de templos na região de Tiwanaku. Os estudiosos do mundo todo afirmam que a civilização que o construiu foi precursora do império Inca e que surgiu como uma grande área de atividade econômica, religiosa e política próxima ao lago Titicaca. O nome significa “a porta do puma”, em aymara.


À primeira vista é impossível imaginar como todo aquele complexo foi construído por um povo que não tinha tecnologia essencial, como a roda e a forja de metais resistentes. Os cortes nas pedras são precisos, os ângulos são retos e os blocos parecem cortados em série com equipamentos elétricos.


O material usado foi o arenito vermelho e o andesito. O primeiro é macio e fácil de ser moldado, já o andesito, que é mais duro, também pode ser trabalhado com o uso de outras pedras ainda mais resistentes. As pedras, em média com 130 toneladas, foram extraídas da margem oeste do lago Titicaca, cerca de 92 km dali.


Os construtores do complexo abusaram de formas geométricas e superfícies polidas, o que dá a impressão não ter sido feito por um povo não civilizado. Entretanto, cientistas afirmam que eles utilizavam métodos bastante simples para isso, observando a forma de pedras inacabadas, que demonstram os métodos, mesmo que certos detalhes só poderiam ter sido feitos com tecnologia avançada, como a de máquinas elétricas.


A tradição inca afirma que não foram eles os construtores daquela cidade e que ela teria surgido da ação dos deuses de um dia para outro. Foi daí que surgiram as teorias sobre o envolvimento de alienígenas, já que a região possui inúmeros relatos de avistamentos de objetos voadores não identificados. Essas teorias se sustentam até certo ponto quando são relacionadas às imagens aéreas do deserto de Nazca, onde estive também.


A "teoria dos antigos deuses astronautas" afirma que os construtores tiveram contato com seres alienígenas inteligentes, que os teriam auxiliado e ensinado técnicas, como a do corte, escultura, polimento, levitação, perfeitos encaixes etc., que hoje teriam se perdido devido a esse povo ser ágrafo. Por esta teoria, o sítio teria perto de 15 mil anos a.C., mas datações recentes por métodos científicos com testes de carbono apontam que ele foi erguido entre 300 d.C. e 600 d.C.


Só posso afirmar que tudo aquilo me fez perder vários dias de sono tranquilo e ficar maravilhado com a capacidade com que homens do passado, com pouca tecnologia, tenham realizado uma obra tão monumental e ainda ficar desconfiado se tiveram mesmo contatos com seres de outra dimensão do Universo. Ainda não tenho resposta e não assumi alguma teoria, já que todas possuem suas razões e são convincentes em muitos pontos. Cada um crê naquilo que quer e precisa crer, não é?

domingo, 11 de janeiro de 2015

Vaidade infantil

O casal da mesa da frente saboreava sua comida todo orgulhoso dos dois filhos: um garoto aparentando dez anos e uma menina, talvez de sete. A carinha de insatisfeito do menino era visível a distância. Já, a da garotinha, era pura alegria.
O filho era a cópia perfeita do pai. Não na fisionomia, mas na maneira de se vestir: sapato, calça social, camisa de tecido e os cabelos penteados para trás. Claro que aquela imposição o diferenciava de todos os garotos do lugar, o que lhe causava constrangimento, timidez e uma raiva explícita. A filha era uma vedete em miniatura: saia curta, mini-blusa, sandália de saltinho, cabelos descoloridos e alisados, bolsinha a tiracolo e maquiagem. Aliás, muita maquiagem.
Ele tentava se esconder porque se sentia ridículo, coisa que satisfazia apenas o ego do pai, cuja tendência em adultizar aquele pobre certamente lhe causaria sérios traumas, principalmente porque sua infância truncada deixaria lacunas não desenvolvidas. Olhava outros garotos com seus trajes “descolados” e se diminuía de inveja. Ele estava sendo impedido de ser um garoto normal. Mas a vaidade do pai era sagrada.
Ela se expunha pela aparente beleza. Tirava o espelho da bolsinha e retocava a maquiagem sob o olhar deleitoso da mãe, cuja aparência era um pleno desleixo: adiposa, cabelos sem corte definido, sem alguma maquiagem e malvestida como o pai.
A vaidade é o desejo natural de atrair a atenção e a admiração de outras pessoas. Quando praticada com moderação, ela é muito saudável, pois ajuda a construir a boa autoestima. É benéfica, necessária e funciona como uma motivação. Porém, quando a vaidade se torna excessiva, coloca em risco o desenvolvimento físico e psicológico da criança, que acaba manipulando as situações a seu favor ao perceber o fenômeno de causa e efeito. É o lado prejudicial da vaidade infantil: quando ganha o aspecto da erotização ou da entrada precoce e forçada no mundo adulto.
Uma criança não tem estrutura psicológica para exercitar papeis de adultos e, assim, a vaidade perde seu caráter valorizador e se torna seu contrário: descaracteriza a criança e a transforma em objeto de adoração. No caso, os pais.
O excesso dessa prática não é determinante do individualismo e do egoísmo, mas pode colaborar para o surgimento dessas características, e é prejudicial na medida em que a criança que se forma acredita ser muito melhor do que a outra e não admite perder ou errar.
Ela acaba entendendo que apenas quando usar este ou aquele produto estará bonita ou que as pessoas irão se aproximar somente quando estiver com tal marca ou tendo tal comportamento. Pode concluir e fixar a ideia de que, se não mantiver um padrão estético as pessoas não irão gostar dela, que não tem culpa, pois a sociedade atual valoriza a posse, ter é melhor que ser e a criança também é alvo dessa prática.
O culto à beleza e a supervalorização da imagem levam a conseqüências lamentáveis, porque ignoram e omitem etapas essenciais para o normal desenvolvimento físico e mental da criança, além de comprometer seu processo de socialização.
O equilíbrio, por parte dos pais, deve ser buscado no sentido de controlar os impulsos infantis. Uma criança não possui maturidade para tomar suas próprias decisões, mas muitas acabam escravizando os pais que não souberam estabelecer limites e dar exemplos quanto aos hábitos de higiene, alimentação adequada, vestuário próprio e prática de esportes para melhor socialização. Conversar com os filhos e fazê-los entender que os excessos são prejudiciais é mister para que a vaidade positiva, adequada seja desenvolvida, sem que se torne uma prática obsessiva.