segunda-feira, 18 de maio de 2015

Paralaxe

Jura que ama como a inconstância do vento.
Eu finjo que lamento, ela amua e se inflama.
A paz da areia me chama, a ela o firmamento.
Torna assim um tormento, que o fel reclama.
Se o frio desejo e intento, é o calor da chama.
Como ficar na cama com seu ser barulhento?
Com seu tempo lento, que quer tudo e clama,
Inventa e trama quando permaneço atento.
Então, me isento, mas se traveste em drama.
Na cidade, guerra proclama se o campo tento.
Se com cores me apresento enquanto brama,
Contamina o panorama com seu tom cinzento.
Então estou indo, que o amor assim não rima.


sábado, 18 de abril de 2015

Estranhamento

Tudo se torna tão comum que acabamos pensando e nos conformando que tudo sempre foi assim e sempre assim será, porque encaramos o mundo como natural, mesmo que ele não o seja. O cotidiano nos acomoda e nos aprisiona.
O modo como olhamos as coisas no mundo não é neutro, mas sim pleno de conceitos herdados, os preconceitos, advindos do senso comum. Daí a necessidade de quebrar esse modo de ver a realidade porque a visão que herdamos dela, e como a reproduzimos, está equivocada devido aos julgamentos, preconceitos, sentimentos que são influenciados pela mídia, escola, família, religião, partidos políticos etc. Assim, inconformados, temos urgência em aprimorar esse gesto e construir um olhar crítico para a realidade e esse se faz com base no estranhamento do cotidiano.  
Para desenvolvermos um pensamento crítico e autônomo precisamos nos afastar de muitas dessas mediações, temporariamente e aos poucos, colocá-las em foco, para observarmos a realidade e podermos analisá-la, comparar com o que pensávamos antes e chegarmos a novas conclusões. Dessa maneira poderemos formar novos valores ou mantermos os que consideramos que são importantes para nossas vidas.
Porém, o estranhamento deve ser acompanhado pela desnaturalização do olhar, pelo desenvolvimento de uma atitude que evite considerar como natural o mundo que nos cerca, já que a maneira como o olhamos, no mais das vezes, é socialmente construída.
Dessa forma, possibilitamos entender suas nuances e talvez mudar de postura ou opinião, caso esta se mostre estranha. Para todas as coisas que temos contato, desde as mais comuns até as mais imprevisíveis e complexas, tentamos encontrar uma explicação. Assim, baseados no conjunto de dados que acumulamos durante a vida, damos respostas às nossas indagações, porque precisamos dar respostas a tudo e como muitas delas já estão prontas, o passo para a acomodação é curto.

O olhar de estranhamento possibilita uma nova ferramenta para se avaliar as coisas, mesmo sabendo que estamos impregnados de senso comum. Essa ferramenta tem uma base racional, que nos permite distanciar ao máximo de todas as possíveis ideias preconcebidas. É um trabalho demorado, mas recompensador, uma vez que possibilita, dentre outras coisas, derrubar preconceitos e dogmas nocivos.


domingo, 1 de fevereiro de 2015

Puma Punco

No ano de 1.986, estive num dos sítios arqueológicos mais impressionantes da Bolívia, Puma Punco, parte de um gigantesco complexo de templos na região de Tiwanaku. Os estudiosos do mundo todo afirmam que a civilização que o construiu foi precursora do império Inca e que surgiu como uma grande área de atividade econômica, religiosa e política próxima ao lago Titicaca. O nome significa “a porta do puma”, em aymara.


À primeira vista é impossível imaginar como todo aquele complexo foi construído por um povo que não tinha tecnologia essencial, como a roda e a forja de metais resistentes. Os cortes nas pedras são precisos, os ângulos são retos e os blocos parecem cortados em série com equipamentos elétricos.


O material usado foi o arenito vermelho e o andesito. O primeiro é macio e fácil de ser moldado, já o andesito, que é mais duro, também pode ser trabalhado com o uso de outras pedras ainda mais resistentes. As pedras, em média com 130 toneladas, foram extraídas da margem oeste do lago Titicaca, cerca de 92 km dali.


Os construtores do complexo abusaram de formas geométricas e superfícies polidas, o que dá a impressão não ter sido feito por um povo não civilizado. Entretanto, cientistas afirmam que eles utilizavam métodos bastante simples para isso, observando a forma de pedras inacabadas, que demonstram os métodos, mesmo que certos detalhes só poderiam ter sido feitos com tecnologia avançada, como a de máquinas elétricas.


A tradição inca afirma que não foram eles os construtores daquela cidade e que ela teria surgido da ação dos deuses de um dia para outro. Foi daí que surgiram as teorias sobre o envolvimento de alienígenas, já que a região possui inúmeros relatos de avistamentos de objetos voadores não identificados. Essas teorias se sustentam até certo ponto quando são relacionadas às imagens aéreas do deserto de Nazca, onde estive também.


A "teoria dos antigos deuses astronautas" afirma que os construtores tiveram contato com seres alienígenas inteligentes, que os teriam auxiliado e ensinado técnicas, como a do corte, escultura, polimento, levitação, perfeitos encaixes etc., que hoje teriam se perdido devido a esse povo ser ágrafo. Por esta teoria, o sítio teria perto de 15 mil anos a.C., mas datações recentes por métodos científicos com testes de carbono apontam que ele foi erguido entre 300 d.C. e 600 d.C.


Só posso afirmar que tudo aquilo me fez perder vários dias de sono tranquilo e ficar maravilhado com a capacidade com que homens do passado, com pouca tecnologia, tenham realizado uma obra tão monumental e ainda ficar desconfiado se tiveram mesmo contatos com seres de outra dimensão do Universo. Ainda não tenho resposta e não assumi alguma teoria, já que todas possuem suas razões e são convincentes em muitos pontos. Cada um crê naquilo que quer e precisa crer, não é?

domingo, 11 de janeiro de 2015

Vaidade infantil

O casal da mesa da frente saboreava sua comida todo orgulhoso dos dois filhos: um garoto aparentando dez anos e uma menina, talvez de sete. A carinha de insatisfeito do menino era visível a distância. Já, a da garotinha, era pura alegria.
O filho era a cópia perfeita do pai. Não na fisionomia, mas na maneira de se vestir: sapato, calça social, camisa de tecido e os cabelos penteados para trás. Claro que aquela imposição o diferenciava de todos os garotos do lugar, o que lhe causava constrangimento, timidez e uma raiva explícita. A filha era uma vedete em miniatura: saia curta, mini-blusa, sandália de saltinho, cabelos descoloridos e alisados, bolsinha a tiracolo e maquiagem. Aliás, muita maquiagem.
Ele tentava se esconder porque se sentia ridículo, coisa que satisfazia apenas o ego do pai, cuja tendência em adultizar aquele pobre certamente lhe causaria sérios traumas, principalmente porque sua infância truncada deixaria lacunas não desenvolvidas. Olhava outros garotos com seus trajes “descolados” e se diminuía de inveja. Ele estava sendo impedido de ser um garoto normal. Mas a vaidade do pai era sagrada.
Ela se expunha pela aparente beleza. Tirava o espelho da bolsinha e retocava a maquiagem sob o olhar deleitoso da mãe, cuja aparência era um pleno desleixo: adiposa, cabelos sem corte definido, sem alguma maquiagem e malvestida como o pai.
A vaidade é o desejo natural de atrair a atenção e a admiração de outras pessoas. Quando praticada com moderação, ela é muito saudável, pois ajuda a construir a boa autoestima. É benéfica, necessária e funciona como uma motivação. Porém, quando a vaidade se torna excessiva, coloca em risco o desenvolvimento físico e psicológico da criança, que acaba manipulando as situações a seu favor ao perceber o fenômeno de causa e efeito. É o lado prejudicial da vaidade infantil: quando ganha o aspecto da erotização ou da entrada precoce e forçada no mundo adulto.
Uma criança não tem estrutura psicológica para exercitar papeis de adultos e, assim, a vaidade perde seu caráter valorizador e se torna seu contrário: descaracteriza a criança e a transforma em objeto de adoração. No caso, os pais.
O excesso dessa prática não é determinante do individualismo e do egoísmo, mas pode colaborar para o surgimento dessas características, e é prejudicial na medida em que a criança que se forma acredita ser muito melhor do que a outra e não admite perder ou errar.
Ela acaba entendendo que apenas quando usar este ou aquele produto estará bonita ou que as pessoas irão se aproximar somente quando estiver com tal marca ou tendo tal comportamento. Pode concluir e fixar a ideia de que, se não mantiver um padrão estético as pessoas não irão gostar dela, que não tem culpa, pois a sociedade atual valoriza a posse, ter é melhor que ser e a criança também é alvo dessa prática.
O culto à beleza e a supervalorização da imagem levam a conseqüências lamentáveis, porque ignoram e omitem etapas essenciais para o normal desenvolvimento físico e mental da criança, além de comprometer seu processo de socialização.
O equilíbrio, por parte dos pais, deve ser buscado no sentido de controlar os impulsos infantis. Uma criança não possui maturidade para tomar suas próprias decisões, mas muitas acabam escravizando os pais que não souberam estabelecer limites e dar exemplos quanto aos hábitos de higiene, alimentação adequada, vestuário próprio e prática de esportes para melhor socialização. Conversar com os filhos e fazê-los entender que os excessos são prejudiciais é mister para que a vaidade positiva, adequada seja desenvolvida, sem que se torne uma prática obsessiva.




quinta-feira, 20 de novembro de 2014

Sons do tempo

Vai de roda, vai de roda, não se encoste no braseiro.
Cante um verso bem bonito, dê adeus e vá embora.
Passe o anel, passe o anel e não encare o parceiro.
Lenço atrás, lenço atrás e corra esse mundo afora.

Bola, bola queimada, vá para o inferno e não chora.
Na trilha da onça ligeira não se torne companheiro.
Pega, pega molecada que ainda não veio a aurora.
Esconde, esconde logo que eu reconto até o milheiro.

Cabra cega, roda cabra e roda até virar o ponteiro.
Pula corda, pula corda que o jabuti já não demora.
Sai de banda, sai de banda que meu gude é certeiro.
Jacaré comprou cadeira para a sogra, sim senhora.

Jogue a pedra amarelinha e vê se ela não se escora.
Faça um verso de amor para aquele amor primeiro.
Pule a fogueira Iaiá, mas não olhe para a caipora.
Bang-bang cara-pálida, não estrague meu canteiro.

Pegue o rabo do balão, que o busca-pé já não perora.
Três catiças pirilampo, deus me livre do aguaceiro.
Dê um chute no gol direto e não mande a bola fora.
É mulher do padre o que corre e não vem primeiro.

Arco íris, arco de roda, risca o chão desse terreiro.
Pisca o olho, balança a saia e corre que a face cora.
Chora, chora bonequinha, que papai já vem ligeiro.
Ligeiro como a flecha que risca o tempo de outrora.