segunda-feira, 14 de dezembro de 2015

Renascimento

Venha noite e reclame o que é só seu,
sem receio de esquecer o que é do dia.
Embale-me nos abraços de Morfeu
e me devolva o que apenas parecia.

Parecia que o mundo todo era só meu
e que planava na mais doce melodia.
Só não entendo onde tudo se perdeu,
quando o véu revelou o que encobria.

Que o Sol me enganou, disto sei eu,
que sua luz trapaceou o que refletia
Se queria meu enlevo, transcendeu
a fronteira entre o real e a fantasia.

Indiferente a tudo que me aconteceu,
foi raiar sua luz em outra freguesia.
Apesar da claridade, tudo se escureceu,
e a imagem ideal, só areia que escorria.

Traga noite solução ao que ocorreu,
aquiete esta razão que me angustia,
recolha-me no escuro do seu breu
e me refaça para mais um novo dia.


terça-feira, 8 de dezembro de 2015

Vitória de Pirro

O verdadeiro nome de Pirro era Neoptólemo, mas foi pelo apelido “cara de lobo” que se tornou conhecido. Ele era filho de Aquiles e da princesa Deidamía e foi criado com sua mãe e avós na cidade de Épiro. Cresceu ouvindo as façanhas que se narravam a respeito de seu pai na Guerra de Troia e, inspirado nele, tornou-se um hábil lutador de espada.
Depois da morte do pai, foi chamado a guerrear contra os troianos e venceu grandes batalhas, sendo muito admirado por isso. Mas o fim da guerra parecia impossível, até que Odisseu tivera a ideia de presentear os troianos com um imenso troféu: um cavalo de madeira, confeccionado com os restos dos barcos gregos destruídos. Ele foi um dos vários guerreiros que entraram em Troia escondidos no ventre cavalo.
Voltando como herói de guerra, desposou Hermione, filha de Menelao, e tornou-se rei de Épiro. Porém, a sanha de mais conquistas preencheu suas intenções e pretendeu vencer os romanos, os mais recentes inimigos da Hélade. Em 280 a.C., armou um considerável exército, com 25 mil homens de infantaria, 3 mil de cavalaria e dezenas de elefantes treinados e cruzou o mar Jônio para conquistar Roma.
Durante cinco anos de uma série de batalhas, alianças políticas muito fracas e gastos imensos com um exército de mercenários, derrotou os romanos. Entretanto suas perdas humanas e materiais foram tão devastadoras que mal conseguiu voltar para seu reino, onde encontrou fome e desolação.
Apesar de ser considerado um dos melhores generais do seu tempo, sua obstinada intenção de construir um império na Magna Grécia deixou como herança apenas a expressão "vitória de Pirro", que serve para exemplificar que nem sempre a vitória pertence ao vencedor, pois numa revide romana, toda a Hélade foi incorporada como colônia. Acabou sendo morto por Orestes, o primeiro e real amor de Hermione.
A expressão “vitória de Pirro” é uma metáfora muito usada para descrever uma vitória tão sacrificada, desgastante e violenta que, na prática não valeu a pena ser obtida, já que o custo foi mais alto do que as vantagens advindas.

É possível trazer essa história para nossa vida real e refletir até que ponto estamos perseguindo uma vitória parecida. Para manter um relacionamento, um emprego, uma posição social ou de mando paga-se muito caro por isso, não raras vezes, uma vida inteira de prejuízos, tanto materiais como morais, psicológicos e até físicos. Perder a saúde, o sono, o tempo e as boas companhias vale a pena? No final resta a sensação de derrota, de incertezas, infelicidade, desprezo e uma morte inglória. 


terça-feira, 13 de outubro de 2015

Quem governa de fato?

Não é o Estado e nem o governo que determinam como o povo deve pensar e agir, é justamente o contrário: é o povo que determina o ritmo de ação do governo. Em teoria, muitos pensadores já descreveram como o povo deve se portar para exigir que o Estado e seus representantes políticos de fato o representem e desempenhem funções adequadas e necessárias, que desenvolvam políticas públicas relevantes e administrem o dinheiro público com o máximo de lisura possível.
Um povo que se educa, que não se aliena e não se corrompe, por si só, inibe as ações nefastas de alguns representantes e exige que a justiça seja imparcial e se adeque ao comportamento social, alcançando e punindo de forma justa aqueles que se beneficiam por meio dos contratos entre o Estado e empresas privadas, das licitações, das comissões designadas a destinar verbas para a Educação, a Saúde, a Segurança, a Moradia e outras políticas sociais, enfim, ao objetivo que o dinheiro, arrecadado por meio dos impostos, sirva de modo correto e justo.
É possível verificar que, nos filmes e séries produzidos nos EUA, sejam eles de ação, drama, comédia, ficção etc., é comum os personagens demonstrarem o amor que sentem pela pátria, a recusa pela mentira e pela má postura, a justiça imperando na maioria dos casos, a solidariedade e a hombridade das lideranças e a compreensão de que o que fazem no particular interfere e influi no âmbito geral, o do país. Claro que é uma nação imperialista, com enormes problemas sociais e políticos, que se intromete no destino de outros países como se fosse o modelo ideal a ser seguido por outros povos, com cultura e tradição nada compatível com a sua, que não respeita a autodeterminação dos povos e se julga o suprassumo da evolução humana, com sua tecnologia e capital, que compram, corrompem, subornam, calam a boca e impõem um ‘modus vivendi’ para o resto do Globo.
No Pindorama, são as novelas que impõem uma ideologia comportamental nada desejável para uma nação que se pretende civilizada. Não vou aqui ficar martelando nas mazelas sobre o comportamento social que todos sabem quais são; nas lacunas ideológicas produzidas pela má educação e má gestão; na inação de um povo apático e alienado que, às vezes, se levanta raivoso, movido por uma intenção surgida sabe-se lá onde; nos costumes deprimentes; na perda constante dos valores tradicionais; na decadência da cultura e da arte e muitas outras.
Dizer que o poder é do povo, que emana do povo e por ele deve ser exercido fica bem numa teoria, porque, na prática, não é assim que acontece. Odeio a frase: ‘cada povo tem o governo que merece.’ Só sei que é possível afirmar que a ação governamental é o reflexo da inação popular, da alienação e do descaso com a História, com o destino da nação e com o futuro que, para uma parcela significativa da sociedade, vai até o próximo baile funk.


segunda-feira, 10 de agosto de 2015

Condicional

Se vier com todo amor, o meu abraço.
Mas eu passo se estiver de mau humor.
Sendo como for, não terei embaraço:
Serei seu devasso, sem me descompor.

Se se perder, estou no encalço.
Não medirei espaço para lhe compor.
Só não me venha impor o traço
Que eu mesmo o faço sem dissabor.

Na roda do compasso quando for
Transpor o limite que rechaço
E atravessar o passo da imensa dor,
Não vou me recompor no entrelaço.

A seu dispor, enquanto enlaço
seu corpo lasso com todo ardor.
E com todo amor, terno me faço,
Ocupando o espaço por onde há flor.



segunda-feira, 20 de julho de 2015

Complexo de Gabriela

Apesar de vermos a natureza, o tempo e o espaço em constante mudança, a nossa tendência é mesmo conservadora. A sociedade e a cultura tendem a se conservarem, mas permitem que variações e avanços aqui e ali sejam constituídos em novas práticas, outros parâmetros, modelos que vão sendo testados e admitidos quando apresentam bons resultados.
Todavia, algumas pessoas apresentam uma resistência tão feroz às mudanças que chegam a irritar aqueles que as aceitam mais facilmente. Um medo angustiante se instala diante das novidades, que elas se agarram com unhas e dentes ao passado, ao fora de moda, ao obsoleto, e permanecem fixadas como cracas naquele modelo de antigamente, impedindo seu crescimento pessoal e atrapalhando avanços sociais e humanos.
“Eu nasci assim, eu cresci assim, vou ser sempre assim” é o dogma repetido por aquele que possui este complexo, alegando que a culpa do seu gênio forte, do seu mau-caratismo, de sua preguiça, teimosia, erro constante, murmúrio etc. vem de sua criação, da sociedade, das instituições e até de Deus: “Já que Ele me fez assim, os outros que me aturem.” Inventam desculpas para tudo, constroem argumentos falaciosos e mentem descaradamente para abafarem situações, isentarem-se de responsabilidades e se safarem de julgamentos.
“Que culpa tenho eu?” “Não nasci para isso!” “Essa sociedade não tem jeito!” “Não vou mover uma palha.” “O tempo cura tudo.” “Entregue nas mãos de Deus.” e centenas de outras frases assassinas são emitidas diariamente por uma gente que vê nas mudanças algo que corrobore com seu pessimismo, que colabore para o fracasso, tanto seu quanto dos demais, justamente para concluir de modo arrogante: “Eu avisei.” “Já sabia.” “Só podia dar nisso.” “É o fim dos tempos” e por aí vai.
Suas crenças são incompatíveis com os avanços científicos, a qualidade de sua educação é precária e retrógrada, não sabe se divertir, faz vista grossa à corrupção dos agentes públicos, e são citados como exemplos de esperteza e de enriquecimento, mesmo que de modo desonesto, se recusa a ouvir sobre ética através dos agentes de opinião (professores, jornalistas, religiosos, políticos, filmes, novelas, etc.). Alienam-se e não querem saber que o nosso sistema de governo é o democrático e uma mudança cultural depende mais da compreensão e da conscientização pública e suas cobranças do que de atitudes governamentais.
Vemos que alguns povos se destacam no cenário mundial, apesar de viverem em países pobres de recursos, matérias-primas, solos agriculturáveis, petróleo etc., mas brilham como grandes potências econômicas, com sua produção científica e tecnológica, sua arte, qualidade de vida, cidadania e justiça social.

Mas, em nosso país, as “Gabrielas” são muitas e seu coro apocalíptico ressoa por todo nosso rincão. Como os personagens da caverna de Platão, insistem em afirmar que as sombras que vêem são a plena verdade e que nada pode e nem deve ser alterado, alegando o caos. Até quando?