quarta-feira, 27 de agosto de 2014

Humilhação solidária

A humilhação surge de um desejo do ser humano de se sentir superior rebaixando outros indivíduos e tem origem na desigualdade, porque em muitas ocasiões uma pessoa é humilhada porque é diferente. Por exemplo, uma desigualdade econômica pode originar uma humilhação para pessoas pobres. Outros exemplos se dão entre homens e mulheres, adultos e crianças, indivíduos de regiões diferentes, características físicas como o tom da pele, altura, sotaque e particularidades, como o tamanho das orelhas, do nariz, dos dentes, magreza ou obesidade, cabelos etc.
A humilhação pode ocorrer em vários contextos, sendo que a mais comum é a humilhação social, quando a sociedade rebaixa pessoas que são consideradas socialmente inferiores. Outro tipo de humilhação ocorre quando pessoas na velhice são discriminadas, humilhadas e excluídas.
No ambiente de trabalho, acontecem muitas vezes situações de humilhação. Neste caso, um determinado trabalhador é colocado em uma situação vexatória, sendo rebaixado por algum motivo. Esse tipo de atitude é descrito como assédio moral, e quando a humilhação é provada em um tribunal, a vítima pode ter direito a receber uma indenização por danos morais.
No âmbito escolar, o bullying consiste no ato de humilhar um indivíduo ou grupo através de agressões físicas ou verbais. Os humilhadores se aproveitam de um valentão (touro) para impor suas vontades e diminuir os perseguidos.
A humilhação repetitiva e prolongada tornou-se prática costumeira no interior das empresas e escolas, onde predomina o menosprezo e indiferença pelo sofrimento alheio, constituindo um risco invisível, porém concreto nas relações de trabalho ou escolar, afetando, muitas vezes, a saúde dos trabalhadores e dos alunos, revelando uma das formas mais poderosa de violência sutil nas relações organizacionais, sendo mais frequente com as mulheres, negros, analfabetos, de outras etnias (japoneses e índios), idosos e adoecidos. Sua reposição se realiza ’invisivelmente’ nas práticas perversas e arrogantes das relações autoritárias na empresa, escola, presídio, família e sociedade.
Muitas vezes a humilhação imposta revela o preconceito e a xenofobia por meio de comentários e piadas de cunho racista, homofóbico, étnico, cultural, chauvinista etc. Também nas frases, tidas como verdadeiras pelo senso-comum, tais como: “cabelo crespo é como bandido: ou está preso ou está armado”; “as loiras são burras”; “negro não é inteligente”; “índio é preguiçoso”; “baiano já nasce cansado”; “mineiro é caipira”; “corintiano é bandido” e uma infinidade de outras do gênero.

Fora o “politicamente correto” dos estadunidenses que não discriminam e nem contam piadas de caráter racista porque estes atos são proibidos por lei. Urge que as pessoas se humanizem e partam para agir corretamente, não porque a lei assim o exige, mas porque é o correto e o justo a se fazer. Fora a solidariedade pseudo-cristã, fictícia e mística, baseada na lógica de mercado para com Deus. Fora a solidariedade jurídica, fictícia e obrigatória. Que venha a solidariedade dos humanos evoluídos, que têm claros os devidos comportamentos, justos e dignos para todos os indivíduos de uma sociedade e para com a natureza.


quarta-feira, 30 de julho de 2014

Um dia de domingo

Dizem que o tempo acaba resolvendo a maior parte dos problemas, mas chega uma hora em que devemos ser firmes, inabaláveis e tomar decisões importantes e vitais. Quanto antes melhor! Dizem também que a comunicação não se dá apenas pelas palavras, principalmente para aqueles que convivem por um longo tempo. O tempo é impessoal, mas as palavras não! Porém, nem o tempo e nem as palavras jogadas nele conseguem deter o pensamento, essa fruição incessante, caótica às vezes, que dá forma e sentido a cada ser humano e o identifica. Este não tem amarras, livre e solto preenche o interior de cada ser e o transforma numa realidade maior e mais abrangente que o universo. Como então desvendar o pensamento? O tempo e o pensamento tornam as pessoas previsíveis? As palavras precisam ser ditas? O diálogo por meio de pensamentos é possível?

Estas são algumas questões que discuto em meu primeiro livro. Um diálogo de pensamentos entre um casal que não mais precisa conversar. Não há como não se encontrar nas situações descritas.


quinta-feira, 3 de julho de 2014

Conformismo

Conformar é uma palavra derivada do latim (com = junto e formare = formar) e significa “com formar”, ou seja, conformar. É ser com ou da mesma forma que o pretendido ou o que antecipadamente se estabelece por si mesmo, por um superior, entre pessoas ou grupos.
Todos esperam que algo seja conforme o que é prometido, como um serviço, um produto, uma ação, uma ajuda etc., e sempre resta uma insatisfação quando isso não ocorre de acordo com as especificações exigidas. Então, todos também esperam comportamentos padronizados dos demais indivíduos, mesmo que essa exigência não se aplique a si mesmo.
As pessoas e grupos se relacionam e trocam suas idéias sobre política, economia, religião, moda, comportamento etc. e todos ficam, de certo modo, sujeitos a se submeter, comprometer-se ou a imitar uma ideia, tanto pela imposição ideológica quanto pela solicitação e expectativas sociais. Assim, todos têm, necessariamente, de se encaixar nalguma fôrma por meio das influências ou pela imposição.
A atuação e o tamanho do grupo, o pensamento unânime, a força de união, a proeminência e os compromissos assumidos determinam, em grande parte, a conformidade de um indivíduo em relação aos grupos que pertence. Então, é possível afirmar que conformismo é a atitude individual, de grupos ou da sociedade em se submeter passivamente às opiniões, regras, normas, modelos que, de alguma forma, representam a mentalidade coletiva ou o sistema de valores, e tomá-los como se fossem seus.
O resultado é sempre uma mudança de opinião, de percepção da realidade e de comportamento, objetivando se ajustar àquelas fôrmas, principalmente pela pressão e exigência social. Todos têm de estudar, trabalhar, casar, ter filhos, religião, partido, opinião, casa própria, carro, celular, como se esse fosse um destino único para qualquer dos indivíduos de uma sociedade. Evitar conflitos com a família, comunidade e grupos com ideologias imponentes é a saída da maioria para esquivar-se da rejeição, condenação, excomunhão e ostracismo pela sociedade e pela cultura.
Mas, nem sempre há um conformismo total: uma pessoa pode aderir a uma causa simplesmente para inibir um confronto inevitável, conservando sua opinião secretamente enquanto assume em público o comportamento da maioria. Porém, há divergências entre os estudiosos em configurar o adesismo ou seguidismo como uma variante de conformismo. 

A carência de formação escolar e de informações, o senso comum e, atualmente, a influência da mídia, são fortes constituintes para um indivíduo se conformar e mais facilmente ser manipulado. Mesmo tendo uma fração de consciência de que é dirigido à distância, o indivíduo se conforma com o método adquirido pela experiência (empírico) que é melhor evitar as sansões inexoráveis aplicadas aos desviados da norma geral. E é por isso que temos de conviver com uma sociedade conformada, alienada em sua liberdade, inconsciente de seus direitos e inoperante em seus deveres. Conformar-se não é preciso!

sexta-feira, 13 de junho de 2014

O Vento e o Tempo

Atirei milhares de palavras, como rajada, ao brando vento
e esperei que me devolvesse, tal como pétalas, sua resposta.
Ele se foi sem se importar, se importou-se, virou de costa,
do avesso, o travesso. Volteou e me deixou, ali, no relento.

Insisti feito louco por dias, teimoso, no meu insano intento.
Mas nenhum olá, como vai, estou pensando numa proposta
que, se não for a certa, mesmo que incerta, que não gosta,
lhe darei no devido tempo, não insista, não seja marrento.

Que é impessoal, instável e volúvel já tenho conhecimento,
mas ignorar, tal feito ingrato, a minha inquietação já posta,
e transmudar e nem devolver, até numa situação composta,
que me desse, ainda que tardios, sem nexo, a paz e o alento.

Esperei muito e desisti, contrariado, após um tempo lento,
que se foi sem me ver também. Minha vida ficou disposta
às intempéries de ambos, sem que pudesse ver transposta
a dor. O dissabor permaneceu, inerente, como sócio atento.

O tempo não me trouxe, ainda incerto, algum ensinamento
e o vento, brando ou furioso, preferiu desgastar a encosta.
Então não esperei mais nada deles e não mais fazer aposta
já que as decisões são só minhas e é esse meu argumento.



sexta-feira, 2 de maio de 2014

Tragédia

A palavra tragédia deriva dos termos gregos tragos (bode) e odé (canto), resultando em tragoidia, que significa literalmente “canção do bode”. A tradição dizia que ela foi criada pelos sátiros, seres metade humanos e metade bodes que cercavam Dionísio durante suas festividades. Dionísio é o deus das artes, da bebedeira divertida, do riso e da dança, o deus-espelho que reflete para as pessoas o que elas são. A partir da reflexão, elas passam a aceitar o que são e o que os outros são, podem perceber e respeitar o diferente, que canta e dança como qualquer um. É onde começa a surgir o conceito de humanidade, de que o ser humano pertence a um universo maior que o da região onde vive. Durante essas festas, as pessoas expurgavam seu lado sombrio e renasciam para a nova realidade mais condescendentes com seus iguais.
As festividades a Dionísio ocorriam na primavera, quando os tragediógrafos, como Sófocles, Aristófanes, Ésquilo e Eurípedes, concorriam a um prêmio, geralmente com três peças trágicas e uma peça satírica cada. Apesar de a produção ser abundante entre os séculos III e IV a.C., na Grécia Antiga, a maior parte das tragédias não sobreviveu.
Aristóteles foi o primeiro pensador a teorizar que a tragédia encenada resulta numa catarse daqueles que a assistem e isto explicaria o motivo de apreciarem ver o sofrimento dramatizado. Sua função é provocar por meio da compaixão e do temor a expurgação ou purificação dos sentimentos (catarse). Para ele, a tragédia deve cumprir três condições: possuir personagens fortes e de elevada condição, ser contada em linguagem elaborada, mas de fácil acesso, e ser digna e ter um final no mais das vezes catastrófico, com a destruição ou loucura de um ou vários personagens sacrificados por seu orgulho e prepotência ao tentar se rebelar contra as forças do destino (o sagrado).
Contudo, a encenação das tragédias causou o despertar de uma nova forma de pensar com Sócrates e Platão, mestre e aluno, cujos pensamentos engendraram o embrião da filosofia, baseada na razão e na busca da verdade, que nortearia as civilizações ocidentais desde então.
No século XIX, os escritores Nietzsche e Machado de Assis mergulharam fundo nas tragédias. O primeiro buscou inspiração nelas para demonstrar a realidade e, o segundo, buscou na realidade o fundamento de suas tragédias. O Antigo Testamento do livro mais marcante de todos os tempos, a Bíblia, está repleto de acontecimentos trágicos, como desfecho de uma vida iníqua ou resistente ao sagrado. Nele, também os evangelistas narram a tragédia de Ioshua ben Ioseph (Jesus), capaz de comover as pessoas pela sua dramaticidade.
Os filmes e novelas da atualidade estão fartos de cenas calamitosas, principalmente para os personagens maus. Os leitores e o público cinéfilo e televisivo se esbaldam com as tragédias esperadas em cada roteiro. Não é à toa que programas de TV e jornais sangrentos captam a atenção das pessoas de modo catártico e as comove à exaustão. As letras da maioria das canções, e não importam o estilo e o ritmo, descrevem as tragédias pessoais e garantem seu sucesso.
Restou para nós um sentido negativo da palavra tragédia, como grandes desgraças, mortes, doenças, acontecimentos que recusamos e queremos longe de nossas vidas cômodas. Só que não é possível viver sem esses acontecimentos, pois é como se tentássemos viver uma antinatureza humana e num paraíso utópico.
É por isso que desejamos que a justiça apareça em forma de desgraça ou doença para os desregrados, especialmente para aqueles que nos causam o mal. Como se a justiça fosse uma entidade separada da nossa moral, tivesse consciência e pudesse restabelecer as coisas justamente como as desejamos; quem pensa diferente é o contrário, representa o mal e deve ser exterminado. O hipócrita diria: não lhe quero bem, mas não lhe desejo o mal.
Trazemos enraizada a noção moral da recompensa e desde a infância somos treinados a pensar assim: aos bons, todas as coisas boas, dádivas e bênçãos; aos ruins, a vida lhe mostrará a paga algum dia e, de preferência que seja nesta vida, para que eles sofram o mesmo mal que causaram, que colham a semente do vento e da tempestade que plantaram. Desta forma, os conceitos de culpa e de merecimento se encaixam em silogismos morais. Quando não percebemos relações entre pessoas e destinos ruins, as creditamos à tragédia, ou seja, não entendemos por que uns sofrem tanto, enquanto outros perversos riem.
Mas, tragédia mesmo, é não entender que vivenciamos fatos bons e maus, que convivemos com pessoas que jamais saberemos de sua verdadeira identidade, assim como nós pouco nos conhecemos e também podemos surpreender negativamente aos outros. Mudar essa maneira de ver e viver as coisas exigiria uma completa guinada cultural, o que torna impossível essa empreitada. Reviver o culto a Dionísio para expurgar a humanidade tampouco seria viável. Então, só nos resta refletir sobre nossa postura ante as tragédias inevitáveis e até que ponto nos comprazemos  com elas.