sábado, 27 de setembro de 2014

Invisíveis fios

Ivie está sofrendo e não entende porque está sentindo tanta falta daquele inconsequente. Se não gosta mais dele, por que sua indiferença a incomoda tanto?

Conheceu Daniel num bar, enquanto jogava sinuca com mais três amigos: Érica, Fúlvia e Michel. Sentia que precisava de um amor, pois havia um tempo que não namorava e, bonita e atraente, não compreendia porque não era assediada como as outras. Nem por isso iria se jogar em cima de qualquer um.

Quando Daniel a olhou e demorou no olhar, ela sentiu um leve arrepio. Estava ali uma possibilidade? Devolveu o olhar e um leve sorriso, daqueles que os amigos chamavam de monalísico. Não demorou para que ele se achegasse e a convidasse para um drinque. Foram conversar e a partida de sinuca teve de ser terminada pelos outros três.

Em duas semanas, Ivie já havia estabelecido muitos vínculos com Daniel, sua família, sua casa, a cachorra Sara, sua cozinha, seu banheiro, sua área de serviço, suas roupas, seu estilo despojado e um tanto vagabundo e seus acordes dissonantes, já que pretendia ser um músico de sucesso.

Não se deu conta de que se escravizava em troca de algumas migalhas de afeto, que se resumia num sexo rápido, sem aquele momento de prazer de um abraço carinhoso do depois. Em dois meses estava empapuçada daquilo tudo e resolveu discutir aquela relação desigual. Daniel, do alto de sua comodidade, não entendeu sua impertinência.

Enquanto Ivie se emaranhava nos inúmeros fios que a ligava a todas as pessoas e coisas pertencentes ao namorado, este apenas esticara um tênue e esboçado fio até ela. Assim, quando resolveu dar um basta, ele pouco se afetou, enquanto ela saiu sem saber o que fazer com a imensa teia que a prendia indelevelmente.

Refletiu sobre esse estranho hábito da mulher de enredar todo um contexto e se machucar profundamente quando ele não mais lhe pertence, principalmente porque nunca poderia se vingar daquele desprezo e indiferença, já que havia se entregado por completo. Discutiu com seus amigos e concluiu que as mulheres são treinadas desde a mais tenra idade a serem assim e que os homens são torcidos também até que se tornam seres de fora, do mundo, da praticidade, da racionalidade e de uma coisa de cada vez.

Prometeu que de outra vez não será mais desta forma, mas ela tenta se enganar e justificar a si mesma que está diferente e mais esperta. Daniel já está namorando outra e estabelecendo aquele mesmo padrão de comportamento. E sua nova namorada, como uma aranha tecelã, já está totalmente presa na própria teia.



quarta-feira, 27 de agosto de 2014

Humilhação solidária

A humilhação surge de um desejo do ser humano de se sentir superior rebaixando outros indivíduos e tem origem na desigualdade, porque em muitas ocasiões uma pessoa é humilhada porque é diferente. Por exemplo, uma desigualdade econômica pode originar uma humilhação para pessoas pobres. Outros exemplos se dão entre homens e mulheres, adultos e crianças, indivíduos de regiões diferentes, características físicas como o tom da pele, altura, sotaque e particularidades, como o tamanho das orelhas, do nariz, dos dentes, magreza ou obesidade, cabelos etc.
A humilhação pode ocorrer em vários contextos, sendo que a mais comum é a humilhação social, quando a sociedade rebaixa pessoas que são consideradas socialmente inferiores. Outro tipo de humilhação ocorre quando pessoas na velhice são discriminadas, humilhadas e excluídas.
No ambiente de trabalho, acontecem muitas vezes situações de humilhação. Neste caso, um determinado trabalhador é colocado em uma situação vexatória, sendo rebaixado por algum motivo. Esse tipo de atitude é descrito como assédio moral, e quando a humilhação é provada em um tribunal, a vítima pode ter direito a receber uma indenização por danos morais.
No âmbito escolar, o bullying consiste no ato de humilhar um indivíduo ou grupo através de agressões físicas ou verbais. Os humilhadores se aproveitam de um valentão (touro) para impor suas vontades e diminuir os perseguidos.
A humilhação repetitiva e prolongada tornou-se prática costumeira no interior das empresas e escolas, onde predomina o menosprezo e indiferença pelo sofrimento alheio, constituindo um risco invisível, porém concreto nas relações de trabalho ou escolar, afetando, muitas vezes, a saúde dos trabalhadores e dos alunos, revelando uma das formas mais poderosa de violência sutil nas relações organizacionais, sendo mais frequente com as mulheres, negros, analfabetos, de outras etnias (japoneses e índios), idosos e adoecidos. Sua reposição se realiza ’invisivelmente’ nas práticas perversas e arrogantes das relações autoritárias na empresa, escola, presídio, família e sociedade.
Muitas vezes a humilhação imposta revela o preconceito e a xenofobia por meio de comentários e piadas de cunho racista, homofóbico, étnico, cultural, chauvinista etc. Também nas frases, tidas como verdadeiras pelo senso-comum, tais como: “cabelo crespo é como bandido: ou está preso ou está armado”; “as loiras são burras”; “negro não é inteligente”; “índio é preguiçoso”; “baiano já nasce cansado”; “mineiro é caipira”; “corintiano é bandido” e uma infinidade de outras do gênero.

Fora o “politicamente correto” dos estadunidenses que não discriminam e nem contam piadas de caráter racista porque estes atos são proibidos por lei. Urge que as pessoas se humanizem e partam para agir corretamente, não porque a lei assim o exige, mas porque é o correto e o justo a se fazer. Fora a solidariedade pseudo-cristã, fictícia e mística, baseada na lógica de mercado para com Deus. Fora a solidariedade jurídica, fictícia e obrigatória. Que venha a solidariedade dos humanos evoluídos, que têm claros os devidos comportamentos, justos e dignos para todos os indivíduos de uma sociedade e para com a natureza.


quarta-feira, 30 de julho de 2014

Um dia de domingo

Dizem que o tempo acaba resolvendo a maior parte dos problemas, mas chega uma hora em que devemos ser firmes, inabaláveis e tomar decisões importantes e vitais. Quanto antes melhor! Dizem também que a comunicação não se dá apenas pelas palavras, principalmente para aqueles que convivem por um longo tempo. O tempo é impessoal, mas as palavras não! Porém, nem o tempo e nem as palavras jogadas nele conseguem deter o pensamento, essa fruição incessante, caótica às vezes, que dá forma e sentido a cada ser humano e o identifica. Este não tem amarras, livre e solto preenche o interior de cada ser e o transforma numa realidade maior e mais abrangente que o universo. Como então desvendar o pensamento? O tempo e o pensamento tornam as pessoas previsíveis? As palavras precisam ser ditas? O diálogo por meio de pensamentos é possível?

Estas são algumas questões que discuto em meu primeiro livro. Um diálogo de pensamentos entre um casal que não mais precisa conversar. Não há como não se encontrar nas situações descritas.


quinta-feira, 3 de julho de 2014

Conformismo

Conformar é uma palavra derivada do latim (com = junto e formare = formar) e significa “com formar”, ou seja, conformar. É ser com ou da mesma forma que o pretendido ou o que antecipadamente se estabelece por si mesmo, por um superior, entre pessoas ou grupos.
Todos esperam que algo seja conforme o que é prometido, como um serviço, um produto, uma ação, uma ajuda etc., e sempre resta uma insatisfação quando isso não ocorre de acordo com as especificações exigidas. Então, todos também esperam comportamentos padronizados dos demais indivíduos, mesmo que essa exigência não se aplique a si mesmo.
As pessoas e grupos se relacionam e trocam suas idéias sobre política, economia, religião, moda, comportamento etc. e todos ficam, de certo modo, sujeitos a se submeter, comprometer-se ou a imitar uma ideia, tanto pela imposição ideológica quanto pela solicitação e expectativas sociais. Assim, todos têm, necessariamente, de se encaixar nalguma fôrma por meio das influências ou pela imposição.
A atuação e o tamanho do grupo, o pensamento unânime, a força de união, a proeminência e os compromissos assumidos determinam, em grande parte, a conformidade de um indivíduo em relação aos grupos que pertence. Então, é possível afirmar que conformismo é a atitude individual, de grupos ou da sociedade em se submeter passivamente às opiniões, regras, normas, modelos que, de alguma forma, representam a mentalidade coletiva ou o sistema de valores, e tomá-los como se fossem seus.
O resultado é sempre uma mudança de opinião, de percepção da realidade e de comportamento, objetivando se ajustar àquelas fôrmas, principalmente pela pressão e exigência social. Todos têm de estudar, trabalhar, casar, ter filhos, religião, partido, opinião, casa própria, carro, celular, como se esse fosse um destino único para qualquer dos indivíduos de uma sociedade. Evitar conflitos com a família, comunidade e grupos com ideologias imponentes é a saída da maioria para esquivar-se da rejeição, condenação, excomunhão e ostracismo pela sociedade e pela cultura.
Mas, nem sempre há um conformismo total: uma pessoa pode aderir a uma causa simplesmente para inibir um confronto inevitável, conservando sua opinião secretamente enquanto assume em público o comportamento da maioria. Porém, há divergências entre os estudiosos em configurar o adesismo ou seguidismo como uma variante de conformismo. 

A carência de formação escolar e de informações, o senso comum e, atualmente, a influência da mídia, são fortes constituintes para um indivíduo se conformar e mais facilmente ser manipulado. Mesmo tendo uma fração de consciência de que é dirigido à distância, o indivíduo se conforma com o método adquirido pela experiência (empírico) que é melhor evitar as sansões inexoráveis aplicadas aos desviados da norma geral. E é por isso que temos de conviver com uma sociedade conformada, alienada em sua liberdade, inconsciente de seus direitos e inoperante em seus deveres. Conformar-se não é preciso!

sexta-feira, 13 de junho de 2014

O Vento e o Tempo

Atirei milhares de palavras, como rajada, ao brando vento
e esperei que me devolvesse, tal como pétalas, sua resposta.
Ele se foi sem se importar, se importou-se, virou de costa,
do avesso, o travesso. Volteou e me deixou, ali, no relento.

Insisti feito louco por dias, teimoso, no meu insano intento.
Mas nenhum olá, como vai, estou pensando numa proposta
que, se não for a certa, mesmo que incerta, que não gosta,
lhe darei no devido tempo, não insista, não seja marrento.

Que é impessoal, instável e volúvel já tenho conhecimento,
mas ignorar, tal feito ingrato, a minha inquietação já posta,
e transmudar e nem devolver, até numa situação composta,
que me desse, ainda que tardios, sem nexo, a paz e o alento.

Esperei muito e desisti, contrariado, após um tempo lento,
que se foi sem me ver também. Minha vida ficou disposta
às intempéries de ambos, sem que pudesse ver transposta
a dor. O dissabor permaneceu, inerente, como sócio atento.

O tempo não me trouxe, ainda incerto, algum ensinamento
e o vento, brando ou furioso, preferiu desgastar a encosta.
Então não esperei mais nada deles e não mais fazer aposta
já que as decisões são só minhas e é esse meu argumento.