quinta-feira, 20 de novembro de 2014

Sons do tempo

Vai de roda, vai de roda, não se encoste no braseiro.
Cante um verso bem bonito, dê adeus e vá embora.
Passe o anel, passe o anel e não encare o parceiro.
Lenço atrás, lenço atrás e corra esse mundo afora.

Bola, bola queimada, vá para o inferno e não chora.
Na trilha da onça ligeira não se torne companheiro.
Pega, pega molecada que ainda não veio a aurora.
Esconde, esconde logo que eu reconto até o milheiro.

Cabra cega, roda cabra e roda até virar o ponteiro.
Pula corda, pula corda que o jabuti já não demora.
Sai de banda, sai de banda que meu gude é certeiro.
Jacaré comprou cadeira para a sogra, sim senhora.

Jogue a pedra amarelinha e vê se ela não se escora.
Faça um verso de amor para aquele amor primeiro.
Pule a fogueira Iaiá, mas não olhe para a caipora.
Bang-bang cara-pálida, não estrague meu canteiro.

Pegue o rabo do balão, que o busca-pé já não perora.
Três catiças pirilampo, deus me livre do aguaceiro.
Dê um chute no gol direto e não mande a bola fora.
É mulher do padre o que corre e não vem primeiro.

Arco íris, arco de roda, risca o chão desse terreiro.
Pisca o olho, balança a saia e corre que a face cora.
Chora, chora bonequinha, que papai já vem ligeiro.
Ligeiro como a flecha que risca o tempo de outrora.


quarta-feira, 5 de novembro de 2014

Profanar

Profanar significa literalmente desenvolver à esfera humana o que era ou tinha sido sacralizado, o que fora separado dos homens. É apocalipse, revelação. O termo passou a ter, ao longo do tempo e por influência do catolicismo, uma conotação negativa e até pejorativa, devido aos constantes saques dos tesouros desta igreja.
Mas, na verdade, profanação é a ação que evidencia, que revela, que desvenda o modo como a palavra representa mais do que o que reveste o conceito que ensina a pensar coerentemente e delineia o método filosófico ou não, com seus  procedimentos ou não, de descerramento do objeto e do seu nome próprio. A coisa só existe se possui um nome. Depois disso, seu uso se estende e se democratiza.
A profanação é, desta forma, a restituição do conhecimento, antes pertencente ao sagrado, ao uso e abuso do homem comum. É a democratização da palavra por meio de uma reordenação das coisas. Não, porém, num lugar comum, já que profanar é romper com o mero gosto em cuja vigência a sociedade impede a expressão. É a profanação da linguagem que cria a literatura, a transmutação da forma e da realidade que cria a arte, a inversão e/ou geração dos conceitos que cria a filosofia, a evidenciação do caos que cria a lógica.
A reciclagem e reutilização do lixo, do resto, a musicalidade da favela, a valorização e embelezamento das minorias, a banalização da violência e do que dá vergonha etc. são exemplos de profanação, desde que atendam a uma necessidade social de escancarar suas entranhas para melhor se conhecer.
O rompimento do conceito tradicional da poesia, com sua métrica e rimas, é evidência de profanação porque traz à tona outras realidades, superpostas e ocultas, de exclusivo conhecimento de Deus, até que uma criação passe a pairar na terra de ninguém: a internet. As religiões como o capitalismo, o espetáculo, a política, a democracia comum, o cotidiano, a corrupção dos valores e outras, porque todas são canônicas, se descortinam nas poesias da Gracita, da Carmen, da Dorli, da Chica e de tantas outras belas profanas. Qualquer tema está aberto e ao alcance de todos. A profanação é geral e que assim seja!





sábado, 27 de setembro de 2014

Invisíveis fios

Ivie está sofrendo e não entende porque está sentindo tanta falta daquele inconsequente. Se não gosta mais dele, por que sua indiferença a incomoda tanto?

Conheceu Daniel num bar, enquanto jogava sinuca com mais três amigos: Érica, Fúlvia e Michel. Sentia que precisava de um amor, pois havia um tempo que não namorava e, bonita e atraente, não compreendia porque não era assediada como as outras. Nem por isso iria se jogar em cima de qualquer um.

Quando Daniel a olhou e demorou no olhar, ela sentiu um leve arrepio. Estava ali uma possibilidade? Devolveu o olhar e um leve sorriso, daqueles que os amigos chamavam de monalísico. Não demorou para que ele se achegasse e a convidasse para um drinque. Foram conversar e a partida de sinuca teve de ser terminada pelos outros três.

Em duas semanas, Ivie já havia estabelecido muitos vínculos com Daniel, sua família, sua casa, a cachorra Sara, sua cozinha, seu banheiro, sua área de serviço, suas roupas, seu estilo despojado e um tanto vagabundo e seus acordes dissonantes, já que pretendia ser um músico de sucesso.

Não se deu conta de que se escravizava em troca de algumas migalhas de afeto, que se resumia num sexo rápido, sem aquele momento de prazer de um abraço carinhoso do depois. Em dois meses estava empapuçada daquilo tudo e resolveu discutir aquela relação desigual. Daniel, do alto de sua comodidade, não entendeu sua impertinência.

Enquanto Ivie se emaranhava nos inúmeros fios que a ligava a todas as pessoas e coisas pertencentes ao namorado, este apenas esticara um tênue e esboçado fio até ela. Assim, quando resolveu dar um basta, ele pouco se afetou, enquanto ela saiu sem saber o que fazer com a imensa teia que a prendia indelevelmente.

Refletiu sobre esse estranho hábito da mulher de enredar todo um contexto e se machucar profundamente quando ele não mais lhe pertence, principalmente porque nunca poderia se vingar daquele desprezo e indiferença, já que havia se entregado por completo. Discutiu com seus amigos e concluiu que as mulheres são treinadas desde a mais tenra idade a serem assim e que os homens são torcidos também até que se tornam seres de fora, do mundo, da praticidade, da racionalidade e de uma coisa de cada vez.

Prometeu que de outra vez não será mais desta forma, mas ela tenta se enganar e justificar a si mesma que está diferente e mais esperta. Daniel já está namorando outra e estabelecendo aquele mesmo padrão de comportamento. E sua nova namorada, como uma aranha tecelã, já está totalmente presa na própria teia.



quarta-feira, 27 de agosto de 2014

Humilhação solidária

A humilhação surge de um desejo do ser humano de se sentir superior rebaixando outros indivíduos e tem origem na desigualdade, porque em muitas ocasiões uma pessoa é humilhada porque é diferente. Por exemplo, uma desigualdade econômica pode originar uma humilhação para pessoas pobres. Outros exemplos se dão entre homens e mulheres, adultos e crianças, indivíduos de regiões diferentes, características físicas como o tom da pele, altura, sotaque e particularidades, como o tamanho das orelhas, do nariz, dos dentes, magreza ou obesidade, cabelos etc.
A humilhação pode ocorrer em vários contextos, sendo que a mais comum é a humilhação social, quando a sociedade rebaixa pessoas que são consideradas socialmente inferiores. Outro tipo de humilhação ocorre quando pessoas na velhice são discriminadas, humilhadas e excluídas.
No ambiente de trabalho, acontecem muitas vezes situações de humilhação. Neste caso, um determinado trabalhador é colocado em uma situação vexatória, sendo rebaixado por algum motivo. Esse tipo de atitude é descrito como assédio moral, e quando a humilhação é provada em um tribunal, a vítima pode ter direito a receber uma indenização por danos morais.
No âmbito escolar, o bullying consiste no ato de humilhar um indivíduo ou grupo através de agressões físicas ou verbais. Os humilhadores se aproveitam de um valentão (touro) para impor suas vontades e diminuir os perseguidos.
A humilhação repetitiva e prolongada tornou-se prática costumeira no interior das empresas e escolas, onde predomina o menosprezo e indiferença pelo sofrimento alheio, constituindo um risco invisível, porém concreto nas relações de trabalho ou escolar, afetando, muitas vezes, a saúde dos trabalhadores e dos alunos, revelando uma das formas mais poderosa de violência sutil nas relações organizacionais, sendo mais frequente com as mulheres, negros, analfabetos, de outras etnias (japoneses e índios), idosos e adoecidos. Sua reposição se realiza ’invisivelmente’ nas práticas perversas e arrogantes das relações autoritárias na empresa, escola, presídio, família e sociedade.
Muitas vezes a humilhação imposta revela o preconceito e a xenofobia por meio de comentários e piadas de cunho racista, homofóbico, étnico, cultural, chauvinista etc. Também nas frases, tidas como verdadeiras pelo senso-comum, tais como: “cabelo crespo é como bandido: ou está preso ou está armado”; “as loiras são burras”; “negro não é inteligente”; “índio é preguiçoso”; “baiano já nasce cansado”; “mineiro é caipira”; “corintiano é bandido” e uma infinidade de outras do gênero.

Fora o “politicamente correto” dos estadunidenses que não discriminam e nem contam piadas de caráter racista porque estes atos são proibidos por lei. Urge que as pessoas se humanizem e partam para agir corretamente, não porque a lei assim o exige, mas porque é o correto e o justo a se fazer. Fora a solidariedade pseudo-cristã, fictícia e mística, baseada na lógica de mercado para com Deus. Fora a solidariedade jurídica, fictícia e obrigatória. Que venha a solidariedade dos humanos evoluídos, que têm claros os devidos comportamentos, justos e dignos para todos os indivíduos de uma sociedade e para com a natureza.


quarta-feira, 30 de julho de 2014

Um dia de domingo

Dizem que o tempo acaba resolvendo a maior parte dos problemas, mas chega uma hora em que devemos ser firmes, inabaláveis e tomar decisões importantes e vitais. Quanto antes melhor! Dizem também que a comunicação não se dá apenas pelas palavras, principalmente para aqueles que convivem por um longo tempo. O tempo é impessoal, mas as palavras não! Porém, nem o tempo e nem as palavras jogadas nele conseguem deter o pensamento, essa fruição incessante, caótica às vezes, que dá forma e sentido a cada ser humano e o identifica. Este não tem amarras, livre e solto preenche o interior de cada ser e o transforma numa realidade maior e mais abrangente que o universo. Como então desvendar o pensamento? O tempo e o pensamento tornam as pessoas previsíveis? As palavras precisam ser ditas? O diálogo por meio de pensamentos é possível?

Estas são algumas questões que discuto em meu primeiro livro. Um diálogo de pensamentos entre um casal que não mais precisa conversar. Não há como não se encontrar nas situações descritas.