quarta-feira, 12 de outubro de 2016

Mundo novo?

O MEC apontou que 91% das escolas públicas estão abaixo da média nacional e que tiveram no ano passado um pior desempenho que em 2.014.  Dado este que demonstra de forma vergonhosa a desigualdade de direitos entre as classes sociais, já que houve um aproveitamento melhor na classe abastada e mediano, na classe rica.
Que precisamos de um reforma na Educação como um todo é fato, mas esses dados não podem justificar e corroborar com as propostas defendidas por uma Medida Provisória (PEC 241), articulada por seres que se locupletaram de dinheiro público e agora defendem uma contenção de gastos, arvorando-se como paladinos da economia do Estado Mínimo.
Pior, nossa sociedade mais uma vez terá de engolir o amargor de uma decisão tomada sem consulta aos agentes mais interessados: pais, alunos e professores. Para os últimos, essas intenções nefastas causa-lhes estranheza, desconforto, resistência e raiva ao sentirem-se desvalorizados em seu saber, desqualificados em sua práxis, acumulando afazeres além daqueles previstos para a atuação docente e decente.
A reformulação do Ensino Médio, nos moldes propostos e pouco definidos, tende direcionar a leva de alunos despossuídos de riqueza às escolas técnicas, produtoras de mão-de-obra. Escolas estas que não está preocupada com a função socializadora dos conteúdos de História, Geografia, Filosofia, Sociologia e Arte, com os saberes socialmente construídos e acumulados pela humanidade, com os direitos humanos garantidos pela Lei, com a dignidade da pessoa humana e o lazer. Seu objetivo é somente disciplinar e capacitar um exército de trabalhadores alienados, refletindo uma opção social pelo não-conhecimento.
Para eles, o que está vindo apenas garante o acesso e a permanência na escola, sem, contudo, se responsabilizar pelo conhecimento, principalmente aquele reflexivo e transformador, tão necessário à formação integral do ser como humano, conforme prevê a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, de 1.996.
Aproxima-se uma sociedade inteiramente organizada segundo princípios científicos. Um mundo de pessoas programadas em laboratório (escolas técnicas) e adestradas para cumprir seu papel numa sociedade de castas biologicamente definidas já no nascimento (classes média e pobre). Um mundo no qual a literatura, a música e o cinema só têm a função de solidificar o espírito de conformismo. Um universo que louva o avanço da técnica, a linha de montagem, a produção em série, a uniformidade, e que idolatra Henry Ford. Essa é a visão desenvolvida no clarividente romance distópico: Admirável mundo novo, de Aldous Huxley (1.932).

Quem já o leu, que releia, e quem não o leu, que o faça urgente. Posicionar-se é preciso!


sábado, 12 de março de 2016

Orgulho

O orgulho é um substantivo masculino, cuja origem está no termo catalão “orgull”, que é próprio daquele que tem um conceito exagerado de si próprio. Aí também significa altivez, brio, pundonor e dignidade. É um sentimento de prazer, de satisfação exagerada de si, com o próprio valor ou a própria honra. Mas é também um sentimento egoísta, de admiração pelo próprio mérito, muitas vezes com excesso de amor-próprio, arrogância, soberba, manifesto por meio de bravatas.
O termo, dependendo do contexto ou do sentimento que representa, pode adquirir uma conotação positiva ou negativa. Pejorativo quando demonstra um sentimento excessivo de contentamento a respeito de si mesmo, revelando certo desprezo em relação aos outros. Quando o contentamento se refere à dignidade ou valor de outra pessoa, possui sentido positivo. Como todos têm um sentimento de brio, quando se confrontam com o fracasso ou humilhação, sentem feridos o seu orgulho.
Para muitos, a admissão do erro é algo impensável, principalmente se o erro vier acompanhado de uma repreensão. Como o orgulho sempre distorce a percepção realidade, a aparente perfeição e negação do erro reforçam o sentimento de orgulho. Se não nos apontam os erros, não temos chances de nos aperfeiçoarmos como humanos.
O orgulhoso, cheio de si, também não pede ajuda, mesmo reconhecendo secretamente sua deficiência, pois pensa que não deve revelar suas fraquezas e que não possui conhecimento suficiente para resolver simples problemas. Segue seu próprio método e jamais oferece momento para reparação de seus erros, fingindo não ter necessidade disso.
Alguns não respeitam a hierarquia e jamais se submetem, acreditando que tudo que são e o que fazem é fruto de sua própria sabedoria, inteligência e experiências. Agradecer um favor recebido? Para quê, se tudo é merecido? Não dependem de ninguém, talvez receando que outros possam fazer melhor ou de modo diferente e mais eficiente.
Ninguém é insubstituível quando se trata de peças de uma empresa, corporação, entidade social, política, beneficente ou que seja, e querer fazer tudo do jeito próprio, autovalorizando-se e não se dando oportunidade de aprender com os outros, achando-se pleno, que já sabe o suficiente representa a angústia eterna do orgulhoso, que mente para si e para os demais que está tudo bem e que é feliz ao seu modo.
Outros, de tão arrogantes, opinam sobre tudo e pensam que sua fala é sempre a última palavra sobre o assunto, detestando quando argumentos mais convincentes destroem suas convicções e a dureza de suas muralhas. Mas levar desaforo para casa? Jamais! E a guerra não acaba aí, é apenas uma batalha, pois sentimentos de desforra são arquitetados secretamente e, não raro, acompanhados de desmoralização do inimigo.
Num mundo competitivo, o orgulhoso pode até ter sucesso, porque é característica exigida por certas empresas. Ele jamais reconhecerá que possui um sério problema e nunca admitirá que esteja sendo apenas aproveitado pelo capitalista, bajulando-o, corrompendo-se e premeditando substituí-lo um dia.
O inverso de orgulho é a humildade, que não deve ser confundida com submissão, humilhação, incapacidade, pobreza ou servidão. Também não é aquela pregada por várias religiões com o escuso objetivo de escravizar pessoas a uma fé desprovida de conhecimento e apascentar e alienar o rebanho para explorá-lo convenientemente. Não somos gado!
Ser humilde é reconhecer o estágio de seu processo de humanização, ter noção do quanto é necessário adquirir sempre mais conhecimento, é ter sabedoria para utilizar tudo que nos é disposto de modo racional, eficiente, solidário, sem desperdício e amoroso. É reconhecer as falhas e ver nelas gratas oportunidades, tratar os semelhantes, a natureza e Deus com o devido respeito e ser feliz. A verdadeira felicidade é humilde e generosa e o verdadeiro humilde não se cansa de promovê-la, a despeito dos orgulhosos. 


segunda-feira, 14 de dezembro de 2015

Renascimento

Venha noite e reclame o que é só seu,
sem receio de esquecer o que é do dia.
Embale-me nos abraços de Morfeu
e me devolva o que apenas parecia.

Parecia que o mundo todo era só meu
e que planava na mais doce melodia.
Só não entendo onde tudo se perdeu,
quando o véu revelou o que encobria.

Que o Sol me enganou, disto sei eu,
que sua luz trapaceou o que refletia
Se queria meu enlevo, transcendeu
a fronteira entre o real e a fantasia.

Indiferente a tudo que me aconteceu,
foi raiar sua luz em outra freguesia.
Apesar da claridade, tudo se escureceu,
e a imagem ideal, só areia que escorria.

Traga noite solução ao que ocorreu,
aquiete esta razão que me angustia,
recolha-me no escuro do seu breu
e me refaça para mais um novo dia.


terça-feira, 8 de dezembro de 2015

Vitória de Pirro

O verdadeiro nome de Pirro era Neoptólemo, mas foi pelo apelido “cara de lobo” que se tornou conhecido. Ele era filho de Aquiles e da princesa Deidamía e foi criado com sua mãe e avós na cidade de Épiro. Cresceu ouvindo as façanhas que se narravam a respeito de seu pai na Guerra de Troia e, inspirado nele, tornou-se um hábil lutador de espada.
Depois da morte do pai, foi chamado a guerrear contra os troianos e venceu grandes batalhas, sendo muito admirado por isso. Mas o fim da guerra parecia impossível, até que Odisseu tivera a ideia de presentear os troianos com um imenso troféu: um cavalo de madeira, confeccionado com os restos dos barcos gregos destruídos. Ele foi um dos vários guerreiros que entraram em Troia escondidos no ventre cavalo.
Voltando como herói de guerra, desposou Hermione, filha de Menelao, e tornou-se rei de Épiro. Porém, a sanha de mais conquistas preencheu suas intenções e pretendeu vencer os romanos, os mais recentes inimigos da Hélade. Em 280 a.C., armou um considerável exército, com 25 mil homens de infantaria, 3 mil de cavalaria e dezenas de elefantes treinados e cruzou o mar Jônio para conquistar Roma.
Durante cinco anos de uma série de batalhas, alianças políticas muito fracas e gastos imensos com um exército de mercenários, derrotou os romanos. Entretanto suas perdas humanas e materiais foram tão devastadoras que mal conseguiu voltar para seu reino, onde encontrou fome e desolação.
Apesar de ser considerado um dos melhores generais do seu tempo, sua obstinada intenção de construir um império na Magna Grécia deixou como herança apenas a expressão "vitória de Pirro", que serve para exemplificar que nem sempre a vitória pertence ao vencedor, pois numa revide romana, toda a Hélade foi incorporada como colônia. Acabou sendo morto por Orestes, o primeiro e real amor de Hermione.
A expressão “vitória de Pirro” é uma metáfora muito usada para descrever uma vitória tão sacrificada, desgastante e violenta que, na prática não valeu a pena ser obtida, já que o custo foi mais alto do que as vantagens advindas.

É possível trazer essa história para nossa vida real e refletir até que ponto estamos perseguindo uma vitória parecida. Para manter um relacionamento, um emprego, uma posição social ou de mando paga-se muito caro por isso, não raras vezes, uma vida inteira de prejuízos, tanto materiais como morais, psicológicos e até físicos. Perder a saúde, o sono, o tempo e as boas companhias vale a pena? No final resta a sensação de derrota, de incertezas, infelicidade, desprezo e uma morte inglória. 


terça-feira, 13 de outubro de 2015

Quem governa de fato?

Não é o Estado e nem o governo que determinam como o povo deve pensar e agir, é justamente o contrário: é o povo que determina o ritmo de ação do governo. Em teoria, muitos pensadores já descreveram como o povo deve se portar para exigir que o Estado e seus representantes políticos de fato o representem e desempenhem funções adequadas e necessárias, que desenvolvam políticas públicas relevantes e administrem o dinheiro público com o máximo de lisura possível.
Um povo que se educa, que não se aliena e não se corrompe, por si só, inibe as ações nefastas de alguns representantes e exige que a justiça seja imparcial e se adeque ao comportamento social, alcançando e punindo de forma justa aqueles que se beneficiam por meio dos contratos entre o Estado e empresas privadas, das licitações, das comissões designadas a destinar verbas para a Educação, a Saúde, a Segurança, a Moradia e outras políticas sociais, enfim, ao objetivo que o dinheiro, arrecadado por meio dos impostos, sirva de modo correto e justo.
É possível verificar que, nos filmes e séries produzidos nos EUA, sejam eles de ação, drama, comédia, ficção etc., é comum os personagens demonstrarem o amor que sentem pela pátria, a recusa pela mentira e pela má postura, a justiça imperando na maioria dos casos, a solidariedade e a hombridade das lideranças e a compreensão de que o que fazem no particular interfere e influi no âmbito geral, o do país. Claro que é uma nação imperialista, com enormes problemas sociais e políticos, que se intromete no destino de outros países como se fosse o modelo ideal a ser seguido por outros povos, com cultura e tradição nada compatível com a sua, que não respeita a autodeterminação dos povos e se julga o suprassumo da evolução humana, com sua tecnologia e capital, que compram, corrompem, subornam, calam a boca e impõem um ‘modus vivendi’ para o resto do Globo.
No Pindorama, são as novelas que impõem uma ideologia comportamental nada desejável para uma nação que se pretende civilizada. Não vou aqui ficar martelando nas mazelas sobre o comportamento social que todos sabem quais são; nas lacunas ideológicas produzidas pela má educação e má gestão; na inação de um povo apático e alienado que, às vezes, se levanta raivoso, movido por uma intenção surgida sabe-se lá onde; nos costumes deprimentes; na perda constante dos valores tradicionais; na decadência da cultura e da arte e muitas outras.
Dizer que o poder é do povo, que emana do povo e por ele deve ser exercido fica bem numa teoria, porque, na prática, não é assim que acontece. Odeio a frase: ‘cada povo tem o governo que merece.’ Só sei que é possível afirmar que a ação governamental é o reflexo da inação popular, da alienação e do descaso com a História, com o destino da nação e com o futuro que, para uma parcela significativa da sociedade, vai até o próximo baile funk.